PexelsFIV depois dos 40: quando é a melhor opção e quais cuidados a gravidez exige
A maternidade depois dos 40 anos já é realidade para um número crescente de mulheres no Brasil, mas o desejo de engravidar nessa fase da vida costuma vir acompanhado de dúvidas sobre fertilidade e segurança. A fertilização in vitro (FIV) pode ampliar as chances de gravidez nesse grupo, embora não elimine os efeitos do envelhecimento ovariano nem os riscos obstétricos associados à idade materna mais avançada. Por isso, a escolha do tratamento mais adequado exige sempre uma avaliação individualizada, feita por um especialista em reprodução humana.
A reserva de óvulos de uma mulher diminui ao longo da vida, e essa redução se acelera a partir dos 40 anos. Nessa faixa etária, também aumenta a frequência de alterações cromossômicas nos óvulos, o que reduz as chances de gravidez e eleva o risco de aborto espontâneo. A FIV permite estimular os ovários, coletar os óvulos disponíveis e realizar a fecundação em laboratório, o que em determinadas situações pode ser mais eficaz do que prolongar tentativas espontâneas de gravidez ou recorrer a tratamentos com taxas de sucesso menores, como a inseminação intrauterina.
Um ponto que especialistas fazem questão de reforçar é que a técnica não rejuvenesce os óvulos. Quando o tratamento usa óvulos da própria mulher, as chances de sucesso continuam diretamente relacionadas à idade dela no momento da coleta. Exames como a dosagem do hormônio antimülleriano e a contagem de folículos antrais ajudam a estimar como os ovários devem responder à estimulação, mas não garantem uma gravidez nem determinam sozinhos a qualidade genética dos óvulos coletados.
Quando considerar óvulos doados
Quando a probabilidade de sucesso com óvulos próprios é considerada muito baixa, a utilização de óvulos doados passa a ser uma alternativa discutida com a paciente. Essa opção costuma aumentar as chances de gravidez, já que os óvulos vêm de doadoras mais jovens, com reserva e qualidade ovariana melhores, mas não elimina os riscos obstétricos ligados à idade e às condições de saúde da mulher que vai gestar a criança. Dados citados por clínicas de reprodução humana mostram que, em ciclos de ovodoação, as taxas de sucesso costumam superar os 50%, um número bem mais estável do que o observado em tratamentos com óvulos próprios acima dos 42 anos.
Estudos observacionais também mostram que gestações obtidas por reprodução assistida apresentam maior frequência de algumas complicações, como pré-eclâmpsia, parto prematuro e alterações na placenta. Isso não significa, porém, que todas essas complicações sejam causadas diretamente pelo procedimento de FIV. Mulheres que recorrem ao tratamento costumam ter idade mais avançada, condições associadas à própria infertilidade, ou doenças preexistentes que também influenciam esses resultados, o que torna difícil separar com precisão o efeito do procedimento do efeito das características individuais de cada paciente.
Por que a transferência de um único embrião ganhou espaço
Durante muito tempo, era comum transferir mais de um embrião por ciclo, na tentativa de aumentar as chances de gravidez. O problema é que essa prática também elevava bastante o risco de gestação gemelar, que carrega maior probabilidade de prematuridade e de complicações tanto para a mãe quanto para os bebês. No Brasil, a resolução do Conselho Federal de Medicina limita o número de embriões transferidos conforme a idade da paciente, permitindo até dois embriões para mulheres de até 35 anos, três entre 36 e 39 anos, e até quatro para mulheres com 40 anos ou mais.
Atualmente, a transferência de um único embrião tem sido cada vez mais recomendada como estratégia para reduzir o risco de gravidez múltipla, principalmente quando existe um embrião com boas perspectivas de implantação. A decisão sobre quantos embriões transferir considera idade, qualidade embrionária, histórico reprodutivo da paciente e condições clínicas gerais. O objetivo deixou de ser simplesmente obter um teste de gravidez positivo e passou a ser favorecer o nascimento de um bebê saudável, com a maior segurança possível tanto para a mãe quanto para a criança.
Médicos especialistas em reprodução humana também destacam a importância da avaliação pré-concepcional para mulheres acima dos 40 anos. Antes de iniciar qualquer tratamento, é recomendado investigar e controlar condições como hipertensão, diabetes, obesidade e alterações da tireoide, além de revisar medicamentos em uso e avaliar o histórico obstétrico da paciente. Depois da confirmação da gravidez, o acompanhamento precisa levar em conta os riscos individuais, com vigilância mais próxima da pressão arterial, da glicemia e do crescimento do bebê ao longo da gestação.
O que os números mostram sobre idade e sucesso do tratamento
Levantamentos internacionais, como os dados do Serviço Nacional de Saúde do Reino Unido, equivalente britânico do SUS, mostram de forma clara como a idade influencia diretamente o resultado da FIV quando são usados óvulos da própria paciente. Em mulheres com menos de 35 anos, a chance de nascimento vivo por ciclo de tratamento gira em torno de 32%. Esse número cai para cerca de 19% entre 38 e 39 anos, para 11% entre 40 e 42 anos, e despenca para algo em torno de 4% a 5% acima dos 43 anos. Essa curva ajuda a explicar por que muitos especialistas recomendam não adiar a avaliação de fertilidade quando a gravidez é desejada nessa faixa etária, já que o tempo de espera reduz as chances reais de sucesso a cada ciclo tentado.
No Brasil, a legislação que regula a reprodução assistida, estabelecida pelo Conselho Federal de Medicina, prevê como limite de idade para o uso dessas técnicas os 50 anos, mas a própria resolução recomenda que o médico responsável avalie com cautela os riscos de uma gravidez tardia antes de indicar o tratamento. A resolução também veda a seleção do sexo do embrião, salvo quando o objetivo é evitar doenças genéticas ligadas ao sexo, e permite o uso das técnicas de reprodução assistida por pessoas solteiras e por casais homoafetivos, ampliando o alcance da FIV para além do público tradicionalmente associado ao tratamento. A FIV representa um avanço real para quem deseja engravidar depois dos 40, mas nenhum especialista a apresenta como garantia de sucesso: a melhor estratégia depende sempre das características específicas de cada paciente.
Com informações de Jovem Pan.
