Alexander-93/Wikimedia CommonsBYD para de fabricar o King no Brasil
A BYD interrompeu, ao menos temporariamente, a produção do sedã híbrido King em sua fábrica de Camaçari, na Bahia, para concentrar quase toda a capacidade de montagem no SUV Atto 2, que já acumula cerca de 7 mil reservas desde a abertura da pré-venda. A informação foi divulgada pelo site especializado AutoPapo e expõe um problema que vai além da simples escolha de prioridade entre dois modelos: a fábrica baiana da montadora chinesa ainda produz muito abaixo do que foi prometido quando o projeto foi anunciado ao país.
Segundo a reportagem, a BYD afirma ter estoque suficiente do King para abastecer as concessionárias por enquanto, mas não informou quando a produção do sedã será retomada. A decisão chama atenção porque atinge justamente um modelo em alta: em agosto e setembro, o King liderou o segmento de sedãs médios no Brasil e chegou a superar o Toyota Corolla em vendas, ajudado também por uma parada temporária do rival japonês, que mudava de fábrica no período.
Promessas de 2023 muito distantes da realidade de 2026
Quando anunciou a fábrica de Camaçari, em 2023, a BYD projetava iniciar a produção já no segundo semestre de 2024, com capacidade inicial de 150 mil unidades por ano, podendo chegar a 300 mil numa segunda fase. Na cerimônia de inauguração, em outubro de 2025, o próprio fundador da empresa, Wang Chuanfu, chegou a falar publicamente em uma meta ainda mais ambiciosa: 600 mil carros produzidos por ano.
A realidade andou em um ritmo bem mais lento. As obras do complexo atrasaram, em parte depois de um episódio que teve repercussão internacional: o resgate de 163 trabalhadores chineses encontrados em condições análogas à escravidão no canteiro de obras, em dezembro de 2024. A montagem de veículos só efetivamente começou em julho de 2025, quase um ano depois do cronograma original divulgado pela montadora.
Desde que a produção arrancou, a fábrica montou cerca de 150 mil carros, uma média de pouco menos de 10 mil unidades por mês. Para cumprir apenas a capacidade inicial prometida, seriam necessárias 12,5 mil unidades mensais. A meta mais recente divulgada pela própria BYD é chegar a 25 mil carros por mês até o fim de 2026, um salto considerável frente ao ritmo atual.
Outro detalhe reforça o quanto a fábrica ainda está longe de operar em capacidade plena: até agora, Camaçari monta os veículos a partir de conjuntos (kits) que chegam prontos da China, sem realizar todas as etapas de fabricação. As áreas de estamparia, soldagem e pintura, essenciais para que o complexo baiano possa realmente fabricar os carros do zero em território nacional, devem só começar a operar entre novembro e dezembro deste ano, segundo a reportagem do AutoPapo.
O que o King oferece e o que pode vir pela frente
O King é vendido no Brasil em duas versões, ambas híbridas plug-in. A GL combina um motor 1.5 a gasolina com motor elétrico, somando 209 cv e bateria Blade de 8,3 kWh; já a GS entrega 235 cv combinados e bateria maior, de 18,3 kWh. O sedã mede 4,78 metros de comprimento, tem 2,72 metros de entre-eixos e porta-malas de 450 litros, características que o colocam de frente contra concorrentes consolidados como o próprio Corolla e o Honda Civic.
Para analistas do setor automotivo, a pausa na produção do King pode abrir caminho para uma atualização visual do modelo ou até para uma versão híbrida flex, caminho que a BYD já adotou em outros carros vendidos no país, como o Song Pro e o próprio Atto 2. A montadora já testa no Brasil protótipos do King com visual reestilizado, mas até o momento não confirmou oficialmente mudanças no projeto do sedã.
Contexto: a disputa das marcas chinesas no Brasil
O episódio de Camaçari ocorre num momento de forte avanço das marcas chinesas no mercado brasileiro, mesmo em meio a uma queda geral nas vendas de veículos em outubro. A própria BYD segue na liderança desse movimento entre as fabricantes chinesas instaladas no país, disputando espaço contra concorrentes tradicionais japonesas e coreanas que dominam o mercado brasileiro há décadas.
A diferença entre o discurso de instalação industrial, usado para justificar incentivos fiscais estaduais e federais concedidos à BYD na Bahia, e o ritmo real de produção da fábrica de Camaçari tende a seguir sendo acompanhada de perto por concorrentes, sindicatos da indústria automotiva e pelo próprio governo baiano, que apostou na vinda da montadora chinesa como um dos maiores projetos industriais do estado nos últimos anos. Para o consumidor brasileiro que já reservou ou pretende comprar o King, a recomendação de especialistas do setor é acompanhar os canais oficiais da marca antes de tomar decisão, já que a falta de previsão para retomada da produção pode impactar prazos de entrega nos próximos meses.
Com informações de AutoPapo.
