
As mensagens de Moraes para Vorcaro
As mensagens recuperadas do celular de Daniel Vorcaro, ex-dono do Banco Master, expõem um grau de proximidade entre o banqueiro e o ministro Alexandre de Moraes que o Supremo Tribunal Federal preferiria não discutir em plenário. Segundo reportagem do UOL, na coluna de Cézar Feitoza, publicada nesta sexta-feira, 6 de novembro, e reproduzida com destaque pelo O Antagonista, as conversas foram apagadas do aparelho e recuperadas por meio de bancos de dados secundários. Ao todo, a contagem do UOL identificou 316 interações entre os dois nos dois meses anteriores à prisão de Vorcaro.
Os diálogos estão compilados em um site batizado de Masterwhats, onde podem ser consultados trecho por trecho. E o conteúdo, à luz das descrições das matérias, é do tipo que faz o Palácio Alfredo Zahran trocar de assunto. Não é conversa de autoridade com investigado em inquérito. É papo de amigo, com risadinhas incluídas, planos de jantar e pedido de notícia de voo.
Amigo, paizão e jantar em casa
Em 24 de outubro de 2025, Moraes escreveu a Vorcaro: “Obrigado amigo. Nem dá pra perceber que não sou eu rsrs”. A mensagem vinha acompanhada de uma imagem que não foi recuperada pelos peritos ou pelo próprio jornal. Em 12 de novembro, o ministro voltou à carga com humor de pai de família: “Não basta ser pai, tem de participar rsrs”. Vorcaro respondeu à altura: “Você é paizão. Manda abraço pra todos”.
No dia seguinte, a intimidade virou logística de encontro doméstico. Vorcaro perguntou: “Opa tudo bem? Marcado amanha la em casa as 14 ou prefere deixar pra semana que vem?”. Na manhã de 14 de novembro, às 10h03, fechou o compromisso: “Vou chegar 14:30 ok! La em casa marcado”. Moraes, às 13h24, tratou o banqueiro como quem acolhe visita chegada de longe: “Me avise quando pousar”. Seguiu-se o “Ok. Em voo”. Às 14h32, o ministro indagou “Chegou?”. Três minutos depois, Vorcaro confirmou: “Agora pousei”. E Moraes fechou o ciclo: “A caminho então”.
Um banqueiro sob investigação, portanto, pousava um jatinho e avisava o decano da mais alta corte do país, que saía de casa para recebê-lo no mesmo dia. O leitor pode julgar se isso cheira a amizade desinteressada ou a algo que a contradição de interesses mais elementar mandaria evitar.
Pânico em nota de visualização única
A história ganha contorno mais grave no dia seguinte ao jantar, 15 de novembro, quando Vorcaro sentiu o chão tremer. Nesse dia, ele usou o bloco de notas do celular para enviar mensagens de visualização única, recurso que apaga o rastro assim que lido. O conteúdo recuperado é revelador: “Que loucura, bem na semana que estou resolvendo tudo. Aquele mesmo juiz Ricardo? E o Galipolo ta sabendo? Conseguimos fazer algo? Acha que segunda ja tenho que estar fora?”. E, em seguida: “Nao conseguimos reverter isso com Paulo ou Andrei? Muita sacanagem isso. Isso em Brasilia?”.
Segundo as apurações, “Paulo” seria o procurador-geral da República, Paulo Gonet, e “Andrei”, o diretor-geral da Polícia Federal, Andrei Rodrigues. Um investigado perguntando a um ministro do STF se é possível reverter uma operação com a ajuda do chefe da procuradoria e do comandante da polícia federal é, no mínimo, uma cena que pede apuração urgente e pública. A PF, vale registrar, identificou essas mensagens como enviadas ao celular de Moraes. O ministro negou ter trocado mensagens com Vorcaro. A negativa existe e deve ser registrada. Mas convive mal com o arquivo de 316 interações e com a cronologia do jantar documentada minuto a minuto.
A pauta que Moraes não quis ver votada
Essas conversas embasam um relatório da Polícia Federal que deveria ter sido examinado pelo STF em 15 de setembro. Não foi. Nessa sessão, Moraes e seus aliados Flávio Dino, Gilmar Mendes e Cristiano Zanin tumultuaram os trabalhos e impediram qualquer deliberação sobre o documento. O destino do relatório continua pendente de um pedido de vista formulado por Dino, que sustenta a pauta no limbo indefinidamente. A traição do interesse público, nesse episódio, é atribuída pelas evidências: os documentos existem, a sessão foi tumultuada, a vista está em curso. O que os ministros dirão quando forem obrigados a votar é a incógnita que eles próprios fabricaram.
Aos que acham exagero ler essas mensagens como sintoma de captura institucional, o contexto do contrato ajuda. O Banco Master mantinha contrato de R$ 131 milhões com o escritório de advocacia da família de Moraes, chefiado por Viviane Barci de Moraes, mulher do ministro. O escritório confirmou o negócio meses depois e alegou ter atuado na área de compliance da instituição. Um advogado de compliance ganha R$ 131 milhões do banco; o marido do chefe do escritório decide, no plenário, o rumo dos inquéritos que envolvem o mesmo banco. E o relatório que trata disso empilha poeira na gaveta de Dino.
Zettel depõe após oito meses sem interrogatório
Enquanto as mensagens dominam o noticiário, o caso segue seu trâmite formal. A Gazeta do Povo, também nesta sexta, conta que Fabiano Zettel, cunhado de Vorcaro e apontado como operador financeiro do grupo, prestou depoimento à PF na quinta-feira, 5 de novembro, depois de oito meses preso sem ser interrogado. A oitiva durou cerca de uma hora e foi a primeira após três cancelamentos. A defesa havia levado a demora ao STF.
Zettel está preso desde março, com prisão preventiva decretada pelo ministro André Mendonça. As investigações o ligam à “A Turma”, braço de intimidação do esquema, e apuram atuação de um núcleo apelidado de “Os meninos”, responsável por invasões de sistemas oficiais. Na mesma quinta, o ministro Eugênio Fachin rejeitou o pedido de revogação da prisão preventiva de Zettel e o pleito de prisão domiciliar. Em 28 de outubro, a PF havia indiciado 15 pessoas por gestão fraudulenta de instituição financeira, organização criminosa e lavagem de dinheiro.
Vorcaro nega as acusações. A defesa alega perseguição e excesso de prazo. São teses que merecem ser ouvidas, como qualquer réu tem direito. Nada disso, contudo, explica as conversas recuperadas, o jantar marcado, o voo acompanhado pelo ministro ou o pedido de reversão de operação policial endereçado ao chefe da PF e ao procurador-geral. A defesa pode sustentar o que quiser. As mensagens falam por si, e dizem coisas que nenhum advogado de defesa escreveria.
O STF que aceita tumultuar sessão para não votar relatório da PF, que tolera pedido de vista eterno e que convive com contrato bilionário na família de um de seus membros precisa, no mínimo, explicar o que essas mensagens significam. Se são inocentes, que se delibere rápido. Se não são, que se delibere ainda mais rápido. O silêncio é a pior das respostas, e tem sido a escolhida. Faltam respostas, sobra suspeita, e o país assiste.
Este texto se baseia em reportagens do O Antagonista e da Gazeta do Povo, publicadas em 6 de novembro de 2026, e em informações do UOL, na coluna de Cézar Feitoza.
