
Temporais no Rio Grande do Sul deixam três tornados confirmados e mais de 70 mil pessoas afetadas
Defesa Civil confirma três tornados no RS e mais de 70 mil pessoas afetadas pelos temporais
O Rio Grande do Sul amanheceu nesta sexta-feira, 6, contando os estragos de uma das sequências mais violentas de temporais dos últimos anos. Segundo o Jovem Pan, a Defesa Civil estadual confirmou que as chuvas intensas, os ventos fortes e a queda de granizo dos últimos dias afetaram mais de 70 mil pessoas em 136 municípios gaúchos. O balanço oficial ainda aponta 28 feridos, 471 desalojados e 119 desabrigados, com dois óbitos sob investigação para verificar a relação com o tempo severo.
A informação mais grave veio do Centro de Monitoramento da Defesa Civil, que confirmou a ocorrência de tornados em três cidades do Norte do estado: Erval Grande, Itatiba do Sul e Barra do Rio Azul. O fenômeno foi registrado na manhã de quarta-feira, 4, durante a passagem de uma linha de instabilidade que atravessou a região deixando um rastro de destruição.
Como os tornados foram confirmados
De acordo com a própria Defesa Civil, a confirmação não dependeu apenas de relatos. A análise técnica, organizada na Nota Técnica nº 016/2026, cruzou imagens e vídeos encaminhados junto com os registros de ocorrências com dados do radar meteorológico de Chapecó, em Santa Catarina, que também captou o fenômeno naquela manhã.
Houve ainda danos no interior de Aratiba, municício vizinho às três cidades atingidas, mas o órgão estadual esclareceu que, com as evidências disponíveis até agora, não é possível afirmar se aqueles estragos foram causados pelo mesmo tornado. A prudência na atribuição é característica do trabalho do Centro de Monitoramento, que evita classificar como tornado qualquer dano de vento antes de verificar indícios consistentes.
Um detalhe que merece destaque: antes da passagem do fenômeno, às 10h22 de quarta-feira, a Defesa Civil já havia emitido alerta vermelho para a região, justamente por causa da aproximação da linha de tempestades. A mensagem indicava risco de rajadas superiores a 100 km/h e possibilidade de destelhamentos, orientando a população a buscar abrigo. Ou seja, o alerta funcionou, mas a força da natureza ainda assim deixou marcas profundas.
O tamanho do prejuízo em números
O levantamento mais recente, atualizado às 8h58 de sexta-feira, mostra a dimensão do problema. Desde 1º de outubro, o estado registrou 150 ocorrências relacionadas a vendavais, granizo, chuvas intensas, enxurradas, raios, alagamentos e deslizamentos, espalhadas por 136 cidades. Dessas, 131 municípios reportaram feridos ou danos materiais, o que mostra que o problema não se concentrou em um único corredor de tempestade.
Segundo o G1, com base no balanço divulgado na tarde de quinta-feira pela Defesa Civil, o total de pessoas afetadas chegava a 67.526, com 25 feridos, 97 desabrigados e 289 desalojados. Os números subiram de noite para manhã, o que indica que municípios do interior ainda estavam completando seus relatórios quando o primeiro balanço fechou.
Na lista das cidades mais impactadas, Espumoso lidera com folga: 15.201 pessoas atingidas por um vendaval que danificou centenas de residências. Na sequência aparecem Sertão, com 5.541 afetados, Humaitá, com 4.681, Vicente Dutra, com 4.665, e Passa Sete, com 4.186. Já em volume de danos materiais, Nova Prata encabeça o ranking, com 2.711 registros, incluindo cerca de 2,7 mil residências danificadas.
A situação das moradias é um dos pontos mais sensíveis do balanço. Conforme dados compilados pela reportagem do G1, 14 casas foram destruídas em todo o estado, 7.013 sofreram algum tipo de dano estrutural, 2.422 ficaram destelhadas e 110 foram atingidas por alagamentos. Os serviços públicos também sentiram o golpe: 103 escolas e 22 estabelecimentos de saúde registraram danos, além de prédios públicos, estabelecimentos comerciais e infraestrutura urbana em diferentes municípios.
As mortes em investigação
Duas mortes seguem sob apuração para verificar se têm relação direta com os temporais, conforme o Jovem Pan. Em Sagrada Família, um homem foi encontrado morto depois de ser arrastado pela correnteza de um rio. Em Cacique Doble, o corpo de uma mulher foi localizado às margens de um rio. Os dois corpos foram encontrados na quinta-feira, 5.
O G1 acrescentou detalhes sobre as vítimas: trata-se de um homem de 44 anos arrastado pela correnteza em Sagrada Família e de uma mulher de 71 anos encontrada às margens do Rio Carazinho, em Cacique Doble. Enquanto a perícia e a Defesa Civil não fecham a análise da ligação com o tempo severo, os casos permanecem formalmente classificados como óbitos em investigação.
Em Nova Prata, o vendaval deixou 15 dos feridos registrados no estado, segundo a Agência Brasil, o que transforma a cidade em epicentro também do lado humano do desastre. Houve feridos ainda em Rodeio Bonito, Espumoso, Encantado, Passa Sete, Santo Ângelo, São Pedro do Sul e Água Santa.
O temporal não respeitou fronteiras
A mesma linha de instabilidade que castigou o Norte gaúcho castigou o Oeste de Santa Catarina. A Defesa Civil catarinense confirmou tornados em Chapecó e Xanxerê na manhã de quarta-feira. Em Chapecó, a estação meteorológica da defesa civil estadual registrou rajadas de 93 km/h, enquanto um equipamento do Instituto Nacional de Meteorologia em outro ponto da cidade chegou a medir 126 km/h, conforme a Agência Brasil.
Não é coincidência que o radar de Chapecó tenha ajudado a confirmar o tornado gaúcho: os dois eventos fazem parte do mesmo sistema convectivo que avançou pelo Sul na quarta-feira. Registros no Paraná e em São Paulo na mesma data completam o quadro de um sistema de grande extensão, típico de novidade primavera no Sul do país, quando o contraste de massas de ar alimenta tempestades organizadas.
Cenas que resumem o caos
Entre os episódios que ganharam repercussão está o de Passo Fundo, onde um carro caiu em uma cratera aberta por uma obra após as chuvas. Imagens de cidades como Tuparandi e Catuípe mostraram imóveis e empresas completamente destruídos, com estruturas metálicas dobradas como se fossem papel, cena comum em registros de ventos associados a tornados ou downbursts.
Para quem vive nas cidades atingidas, o desafio agora é duplo: lidar com os danos imediatos, principalmente os milhares de telhados perdidos, e acompanhar um estado que já soma anos seguidos de eventos climáticos extremos. O RS registrou enchentes históricas em 2023 e 2024, e a recorrência de vendavais e tornados confirmados aumenta a pressão por investimento em prevenção, radares e sistemas de alerta precoce.
O que esperar dos próximos dias
A Defesa Civil gaúcha afirma que segue monitorando eventos meteorológicos e emitindo alertas, com o objetivo de ampliar a capacidade de prevenção e preparação da população. O órgão orienta que, em caso de alerta vermelho, os moradores evitem áreas abertas, mantenham distância de árvores e estruturas frágeis e procurem abrigo em locais seguros, preferencialmente longe de janelas.
Com boletins ainda sendo atualizados por dezenas de municípios, é provável que os números de afetados e prejuízos mudem nas próximas horas. O que já está confirmado, porém, basta para situar a semana como uma das mais turbulentas do ano no estado: três tornados confirmados, mais de 70 mil pessoas atingidas, milhares de casas danificadas e duas mortes sob investigação, tudo em menos de uma semana de monitoramento intensivo.
