
Tesouro projeta dívida bruta de 89,7% do PIB em 2030
A dívida bruta do governo central deve continuar subindo pelos próximos anos e atingir o pico de 89,7% do Produto Interno Bruto em 2030. A projeção está no 8º Relatório de Riscos Fiscais da União, divulgado nesta semana pela Secretaria do Tesouro Nacional, e reflete um problema simples de aritmética: a conta de juros cresce mais rápido do que a economia consegue crescer.
Segundo o documento, a Dívida Bruta do Governo Geral encerrará 2026 em 83,7% do PIB, um avanço de 5,1 pontos percentuais em relação ao fim de 2025. A partir de 2030, o cenário central aponta reversão gradual, com recuo para 86,3% do PIB ao final do horizonte de projeção, em 2036. Ou seja: mesmo no cenário considerado mais provável pelo próprio Tesouro, o endividamento demora uma década para começar a cair de forma consistente.
O peso dos juros
O principal motor do avanço é a conta de juros nominais. Entre 2026 e 2030, os juros devem adicionar, em média, 8,4 pontos percentuais do PIB por ano à dívida bruta. O crescimento da economia amortece parte desse avanço, mas em proporção menor: o PIB nominal deve abater 6,0 pontos percentuais anuais da relação dívida/PIB, sendo 2,1 pontos pelo crescimento real e 3,9 pontos pelo efeito do deflator.
O resultado é um saldo negativo de 2,4 pontos percentuais por ano, que se acumula sobre um estoque já elevado. É o tipo de dinâmica que transforma um problema de fluxo, o deficit anual, em um problema de estoque, a dívida que se realimenta.
O relatório também calcula a sensibilidade desse quadro a mudanças na política monetária. Uma elevação de 1 ponto percentual ao ano na taxa Selic em relação ao cenário base representaria impacto fiscal acumulado de R$ 476 bilhões em despesas com juros entre 2027 e 2030. O número dá a dimensão do custo de qualquer hesitação no ciclo de queda de juros.
Dívida líquida e trajetória
A Dívida Líquida do Setor Público segue trajetória semelhante. Ela sobe dos 71% do PIB previstos para 2026 até o teto de 78,4% em 2030, recuando depois para 75,6% em 2036. A diferença entre as duas medidas está nos ativos do setor público, que incluem reservas internacionais e créditos diversos.
O Tesouro é explícito sobre a condição para que a curva se inverta: uma trajetória sustentada de queda da relação dívida/PIB depende da continuidade de reformas estruturais voltadas à melhoria do ambiente de negócios, ao aumento da produtividade e, principalmente, a medidas que promovam a consolidação fiscal. Traduzido: sem corte de despesa estrutural, o alívio projetado para depois de 2030 não se sustenta.
O cenário de estresse
O relatório inclui simulações que combinam variações no PIB, nos juros e no resultado primário. Nos cenários com choques simultâneos, a dívida bruta ultrapassa 100% do PIB já a partir de 2033.
No exercício mais adverso, o país enfrentaria ao mesmo tempo menor crescimento econômico, de 0,5 ponto percentual ao ano, juros 1 ponto mais altos e deficits primários de 0,5% do PIB anuais. Nessa combinação, a dívida bruta salta para 103,4% do PIB em 2036, 17,1 pontos percentuais acima do cenário central.
O caminho oposto também está descrito. Uma melhora fiscal combinada a juros menores e aceleração da atividade econômica reduziria a dívida em relação ao PIB, cenário que o próprio Tesouro trata como possível, mas condicionado a decisões políticas que ainda não foram tomadas.
Por que isso importa para o governo
O relatório chega em um momento delicado para a equipe econômica, que enfrenta pressão para acomodar novas despesas em 2027 enquanto o mercado cobra sinalização crível de ajuste. A trajetória de 89,7% do PIB em 2030 funciona como termômetro do grau de confiança que o governo consegue transmitir hoje.
O dado também explica parte do comportamento dos agentes financeiros. Quando a projeção oficial de dívida sobe, o prêmio de risco exigido para financiar o país tende a acompanhar, o que encarece o rolo da dívida e pressiona o câmbio. É um circuito em que a expectativa se converte em custo real.
Para o setor produtivo, o efeito aparece no custo do crédito. Juros altos por mais tempo significam menos investimento, menos contratação e crescimento mais fraco, o que por sua vez reduz a arrecadação e piora o resultado primário. A armadilha é conhecida e já foi descrita em relatórios anteriores do próprio Tesouro, com números cada vez menos confortáveis.
O que o governo diz
A Secretaria do Tesouro não apresenta o quadro como sentença. O documento ressalta que o cenário central é o de reversão a partir de 2030 e que a trajetória depende de variáveis sob controle da política econômica, entre elas o ritmo de queda da Selic e a aprovação de medidas de contenção de despesas.
Nos bastidores, técnicos do ministério argumentam que parte do aumento recente da dívida decorre de fatores temporários, como o crescimento nominal mais fraco e o custo elevado de carregamento herdado do ciclo de aperto monetário. A leitura, porém, não elimina a conclusão principal do relatório: sem mudança estrutural, a dívida para de cair antes de cair de verdade.
A próxima revisão do relatório, prevista para o ano que vem, deve incorporar os efeitos das medidas aprovadas no Congresso no segundo semestre. Até lá, o número de 89,7% seguirá como referência para quem precisa precificar risco Brasil, seja um fundo estrangeiro, seja uma empresa que planeja investir no país.
Reportagem baseada no 8º Relatório de Riscos Fiscais da União, da Secretaria do Tesouro Nacional, com informações publicadas pela Gazeta do Povo.
