Wikimedia CommonsPolícia vai investigar condições do balão, clima e possíveis falhas em acidente que matou oito pessoas em Santa Catarina
A Polícia Civil de Santa Catarina investiga as causas do acidente com um balão de ar quente que deixou oito mortos e 13 feridos na manhã deste sábado (21), em Praia Grande, no sul do estado. “Serão apuradas as condições da aeronave, do clima e se houve falhas operacionais”, informou o delegado-geral da corporação, Ulisses Gabriel, que confirmou que tanto o balão quanto o piloto tinham autorização regular da Agência Nacional de Aviação Civil (Anac) e que a empresa responsável pelo voo operava dentro das normas.
Durante interrogatório, o piloto Elvis de Bem Crescêncio relatou que o fogo teria começado na base do cesto, possivelmente perto de um botijão de gás reserva, e que tentou apagar as chamas com um extintor, sem sucesso. Ele também é investigado por uma possível falha ao esquecer de desligar um maçarico ao final do voo. Além dele, outras cinco pessoas foram ouvidas pela polícia nos primeiros dias de apuração.
Segundo a Polícia Científica, quatro vítimas foram encontradas carbonizadas dentro do cesto e outras quatro morreram com ferimentos graves e queimaduras. Os corpos foram levados para a unidade da corporação em Araranguá, e até o início da noite do próprio sábado seis vítimas já tinham sido identificadas oficialmente. Dos 13 sobreviventes, cinco buscaram atendimento no Hospital Nossa Senhora de Fátima, e apenas duas permaneceram internadas, ambas em estado estável.
Como funciona a fiscalização do balonismo turístico no Brasil
O balonismo comercial no Brasil é regulado pela Anac sob as mesmas exigências aplicadas à aviação civil em geral: certificação da aeronave, licença específica do piloto e vistorias periódicas do equipamento, incluindo o sistema de queimadores e os reservatórios de gás que sustentam o voo. A agência confirmou que a empresa Sobrevoar Balonismo, responsável pelo voo de Praia Grande, não tinha registros de acidentes anteriores, o que torna o episódio ainda mais relevante para entender como falhas pontuais, humanas ou técnicas, podem se transformar em tragédia mesmo dentro de uma operação formalmente regular.
A região serrana do sul de Santa Catarina, onde fica Praia Grande, é um dos principais polos de turismo de balonismo do país, ao lado de cidades como Boituva (SP) e Piracicaba (SP). O relevo de vale, com correntes de ar relativamente previsíveis ao amanhecer, é o que historicamente atrai operadoras para a região, mas também é um fator que a perícia da Polícia Científica já indicou que será avaliado: a reportagem da Jovem Pan apurou que a área apresentava instabilidades e ventos fortes no momento do acidente, condição que pode ter contribuído tanto para o início do incêndio quanto para a dificuldade de controle da aeronave.
O que pode acontecer com o piloto e a empresa a partir de agora
Caso a investigação conclua que houve negligência, imprudência ou imperícia por parte do piloto ou da empresa, o balonista e o proprietário da operadora podem responder por homicídio culposo, modalidade em que a morte ocorre sem intenção mas por descuido comprovado. Se ficar demonstrado que havia conhecimento prévio de um risco grave e ainda assim o voo foi realizado, a tipificação pode avançar para homicídio doloso, cenário mais raro nesse tipo de acidente aéreo mas que a polícia catarinense não descartou nesta fase inicial.
O inquérito corre sob responsabilidade do delegado Rafael Chiara, da cidade de Santa Rosa do Sul, e segue em andamento enquanto a perícia analisa o material recolhido na aeronave, imagens do momento do acidente e os depoimentos já colhidos. O balão transportava 21 pessoas no momento do acidente, sendo 18 de Santa Catarina, duas do Rio Grande do Sul e uma de São Paulo. A capacidade máxima informada pela operadora era de 27 passageiros ou 2.875 quilos, e a polícia descartou excesso de carga como fator do acidente.
Em nota, a Sobrevoar Balonismo afirmou que o piloto “adotou os procedimentos indicados” e que o acidente ocorreu “mesmo com todas as precauções necessárias”. O Ministério Público de Santa Catarina informou que acompanha o caso nas esferas criminal e cível, e tanto a Promotoria de Justiça de plantão quanto a Procuradoria-Geral manifestaram solidariedade às famílias das vítimas, prometendo apuração rigorosa dos fatos.
Acidentes fatais com balões tripulados são raros no Brasil em comparação com países como os Estados Unidos, onde o turismo de balonismo é mais massificado, mas não inéditos: episódios anteriores em regiões turísticas do interior paulista e de Minas Gerais já levaram a Anac a reforçar, nos últimos anos, protocolos de vistoria sobre o sistema de queimadores e sobre os procedimentos de pouso de emergência, justamente o tipo de falha que agora está sob análise no caso de Praia Grande. A agência mantém um cadastro nacional de operadoras de balonismo comercial, e a suspensão cautelar de uma empresa, nos casos em que há indício de falha grave, costuma ocorrer apenas depois da conclusão de um processo administrativo próprio, distinto do inquérito policial conduzido pela Polícia Civil catarinense.
Para as famílias das oito vítimas, a expectativa agora recai sobre o prazo da perícia técnica, que precisa reconstituir com precisão a sequência de eventos a partir do momento em que o fogo teria começado na base do cesto. Esse tipo de reconstituição costuma exigir análise de resíduos de combustão, simulação da dispersão de gás e cruzamento de depoimentos dos sobreviventes com eventuais registros em vídeo feitos por passageiros ou por testemunhas em solo, um processo que normalmente leva de semanas a poucos meses para ser concluído em casos de acidentes aéreos de pequeno porte no Brasil.
Com informações da Jovem Pan.
