Wikimedia CommonsPF indicia Vorcaro e mais 14 por tentativa de compra do Banco Master pelo BRB
A Polícia Federal enviou nesta quarta-feira (28) à Procuradoria-Geral da República (PGR) o relatório final da investigação sobre a tentativa de compra do Banco Master pelo Banco de Brasília (BRB), indiciando 15 pessoas, entre elas o próprio dono do Master, Daniel Vorcaro. As informações foram inicialmente noticiadas pelo g1 e confirmadas pela Jovem Pan. No mesmo documento, a corporação pediu à Justiça a extensão das investigações por mais 60 dias, alegando necessidade de concluir perícias e produzir um relatório complementar.
Além de Vorcaro, foram indiciados Augusto Lima, sócio dele no Banco Master; Paulo Henrique Costa, ex-presidente do BRB; os sócios da empresa Tirreno, Henrique Souza e Silva Peretto e André Felipe de Oliveira Seixas Maia; os diretores do Banco Master Angelo Antônio Ribeiro da Silva, Luiz Antônio Bull e Alberto Félix de Oliveira Neto; o procurador do banco, Allan da Silva Machado; o advogado Daniel Lopes Monteiro; e cinco ex-executivos do BRB: Dario Oswaldo Garcia Junior, Luana de Andrade Ribeiro, Cristiane Maria Lima Bukowitz, Diogo Ilário de Araújo Oliveira e José Maria Correa Dias Junior.
O BRB, instituição vinculada ao Governo do Distrito Federal, tentou adquirir o Banco Master entre 2024 e 2025, mas a operação foi barrada pelo Banco Central antes de ser concluída. O pedido de prorrogação do inquérito será analisado pelo relator do caso no Supremo Tribunal Federal (STF), ministro André Mendonça, a quem está distribuído o processo que envolve o Master desde que o banco entrou em regime de intervenção.
Como o Banco Master chegou a essa crise
O Banco Master construiu, na última década, uma estratégia de crescimento agressivo baseada na captação de recursos via Certificados de Depósito Bancário (CDBs) com rentabilidade acima da média do mercado, usados para financiar uma carteira de ativos que incluía precatórios, participações societárias e operações de crédito mais arriscadas que as de bancos de varejo tradicionais. Esse modelo de negócio, que permitiu ao Master crescer rapidamente em tamanho de balanço, também concentrou no banco um volume de passivos de curto prazo (os CDBs vendidos a correntistas) que precisava ser continuamente rolado, uma característica que analistas do setor financeiro já apontavam como fonte de risco antes mesmo da tentativa de venda ao BRB.
A tentativa de venda ao BRB, banco estatal controlado pelo governo do Distrito Federal, surgiu justamente nesse contexto, como uma via de capitalização e redução de risco para o Master. O veto do Banco Central à operação, somado à posterior intervenção regulatória na instituição, transformou o que começou como uma negociação societária em uma investigação criminal que hoje abrange tanto a cúpula do Master quanto ex-dirigentes de um banco público.
O que o indiciamento muda a partir de agora
O indiciamento pela Polícia Federal não equivale a uma condenação, mas formaliza o entendimento da corporação de que há indícios suficientes para que a PGR avalie a abertura de ação penal contra os 15 investigados. Cabe agora ao procurador-geral da República decidir se oferece denúncia com base no relatório, decisão que, tratando-se de pessoas com prerrogativa de foro vinculada ao caso, tramita sob acompanhamento direto do STF.
A extensão de 60 dias solicitada pela PF para perícias adicionais indica que partes da investigação, provavelmente ligadas à reconstituição do fluxo financeiro entre Master, BRB e a empresa Tirreno, ainda não estavam concluídas no momento do envio do relatório à PGR. Esse tipo de prazo complementar é rotina em investigações que envolvem perícia contábil complexa, como rastreamento de transferências entre contas corporativas e análise de contratos societários assinados ao longo da negociação frustrada entre os dois bancos.
O caso do Banco Master segue sendo acompanhado de perto pelo mercado financeiro, dado o histórico recente de instituições de porte médio que enfrentaram processos de intervenção e liquidação no Brasil, e qualquer decisão da PGR sobre oferecer ou não denúncia tende a ter repercussão tanto no ambiente regulatório quanto na forma como o Banco Central passa a tratar futuras tentativas de fusão envolvendo bancos públicos estaduais e instituições privadas de perfil mais agressivo.
O episódio também reabre um debate recorrente sobre o papel de bancos estaduais em operações de socorro ou aquisição de instituições privadas em dificuldade. Diferentemente de bancos federais como Banco do Brasil e Caixa Econômica Federal, que respondem a um arcabouço de governança corporativa mais robusto e a controles externos do Tribunal de Contas da União, bancos estaduais como o BRB operam sob supervisão mais direta do governo local ao qual pertencem, o que levanta questionamentos sobre o grau de autonomia técnica das decisões de investimento tomadas por seus ex-executivos, hoje entre os indiciados pela Polícia Federal.
Enquanto a PGR não decide sobre a denúncia, o processo de intervenção do Banco Master pelo Banco Central segue seu próprio rito administrativo, com liquidantes nomeados para apurar o tamanho real do rombo na instituição e definir o que pode ser recuperado para credores e correntistas. A sobreposição entre esse processo regulatório e a investigação criminal conduzida pela PF é o que explica por que o caso tem dois fóruns de decisão rodando em paralelo: um voltado à recuperação de ativos e proteção de correntistas, outro voltado à responsabilização penal dos envolvidos na tentativa de venda ao BRB.
Para clientes do Banco Master que mantinham CDBs dentro do limite coberto pelo Fundo Garantidor de Créditos (FGC), de até R$ 250 mil por CPF e por instituição, a expectativa de ressarcimento segue distinta do desfecho penal do caso: o pagamento da garantia já está em curso administrativamente, independentemente de quando a PGR decidir sobre oferecer ou não denúncia contra os 15 indiciados. Já para investidores que tinham valores acima desse teto, o desfecho da investigação criminal pode ter peso direto sobre eventuais ações de ressarcimento na esfera civil, já que a comprovação de conduta criminosa pelos administradores do Master tende a facilitar ações de responsabilização pessoal contra Vorcaro e os demais executivos indiciados, para além do patrimônio da própria instituição em liquidação.
Com informações da Jovem Pan.
