
Lula convoca Durigan e Haddad ao Planalto para costurar pacote econômico antes de pronunciamento no domingo
O presidente Luiz Inácio Lula da Silva reuniu nesta quinta-feira (5) o ministro da Fazenda, Dario Durigan, e o ex-ministro Fernando Haddad no Palácio do Planalto para discutir as próximas medidas econômicas do governo, segundo informou o Jornal da Pan. O encontro, realizado na manhã desta quinta, reúne também economistas da equipe econômica e deve lançar as bases de um pacote que Lula pretende anunciar em pronunciamento em rede nacional já no próximo domingo, dia 8.
A convocação de Haddad chama atenção por si só. Ex-ministro da Fazenda e hoje afastado do comando direto da pasta, ele foi chamado de volta à mesa justamente no momento em que o mercado financeiro voltou a demonstrar desconfiança com os rumos fiscais do país após a reeleição do petista. A proximidade histórica de Haddad com Lula e sua experiência à frente do Ministério da Fazenda parecem pesar mais, neste momento, do que o fato de ele não ocupar mais o cargo oficialmente.
Segundo o Jornal da Pan, o objetivo declarado do encontro é "tranquilizar o mercado financeiro" e sinalizar compromisso com as contas públicas para o que já está sendo chamado internamente de "Lula 4", o quarto mandato do petista à frente do Executivo. A escolha das palavras não é trivial: depois de uma campanha marcada por promessas de ampliação de gastos sociais, o governo agora se vê obrigado a reforçar, publicamente, um discurso de responsabilidade fiscal que parte da própria base nem sempre endossa com entusiasmo.
Participam do encontro, além de Durigan e Haddad, o ministro do Planejamento, Bruno Moretti, e o presidente do BNDES, Aloizio Mercadante, nomes que também vêm sendo associados à formatação das próximas medidas econômicas. A presença simultânea desse grupo reforça a leitura de que o Planalto está tentando montar um arranjo capaz de falar a diferentes públicos ao mesmo tempo: o mercado financeiro, de um lado, e as alas mais à esquerda do governo e do Congresso, de outro, que historicamente resistem a qualquer sinalização de ajuste.
O ministro Dario Durigan declarou a jornalistas que as medidas devem ser implementadas ainda neste ano, depois do retorno de Lula de duas viagens internacionais: primeiro à Turquia, para participar da COP31, e depois às Filipinas, para a cúpula de países do Sudeste Asiático. Esse calendário apertado explica, em parte, a pressa do Planalto em definir o desenho das medidas logo nesta quinta, antes mesmo de o presidente embarcar.
A expectativa de um pronunciamento em rede nacional já no domingo reforça o tom de urgência que a equipe econômica tenta imprimir ao processo. Pronunciamentos desse tipo costumam ser reservados para mensagens de peso político, o que sugere que o Planalto já decidiu tratar o tema como prioridade de comunicação, não apenas como ajuste técnico de bastidores. A pergunta que fica, e que a oposição já vem fazendo há meses, é se o conteúdo das medidas vai de fato corresponder ao tom grave do anúncio ou se vai se resumir, mais uma vez, a sinalizações pontuais sem reforma estrutural nas contas públicas.
Esse é um ponto sensível para o governo. Durante toda a campanha e também na reta final do segundo turno, Lula multiplicou promessas de ampliação de benefícios sociais, isenções e novos programas, sem detalhar como financiar o conjunto todo sem agravar o quadro fiscal já apertado. Agora, antes mesmo de tomar posse para o novo mandato, o presidente se vê obrigado a conter expectativas que ele próprio ajudou a criar, numa corrida contra o relógio para evitar que a desconfiança do mercado se transforme em pressão cambial e de juros logo no início do governo.
A reunião desta quinta também expõe uma dinâmica de poder interna que vale observar. Ao chamar Haddad de volta à mesa de decisões, mesmo sem cargo formal na pasta, Lula sinaliza que ainda confia mais na avaliação técnica do ex-ministro do que na capacidade de Durigan, sozinho, de convencer o mercado financeiro de que o rumo está sob controle. Para quem acompanha de perto a articulação econômica do governo, essa movimentação pode ser lida como um indício de que o comando da política fiscal segue, na prática, mais diluído do que o organograma oficial sugere.
Resta saber se as medidas anunciadas no domingo vão de fato convencer investidores e analistas de que o governo tem um plano consistente, ou se serão recebidas, como já aconteceu em ocasiões anteriores, como mais um gesto de ocasião, destinado a acalmar os mercados no curto prazo sem resolver o problema de fundo das contas públicas brasileiras. Diante do histórico recente do governo Lula em matéria fiscal, a cautela do mercado financeiro, que já reagiu elevando projeções de juros e inflação no primeiro Focus pós-reeleição, parece, até aqui, mais justificada do que a confiança oficial do Palácio do Planalto.
Com informações do Jornal da Pan.
