
Conservadores vencem em referendos estaduais nos EUA apesar da onda democrata nas midterms
Enquanto a imprensa internacional repetia o mesmo refrão sobre uma “onda democrata” nas eleições de meio de mandato americanas, um dado passou quase despercebido nas primeiras coberturas: em meio a essa mesma noite de votação, eleitores de estados que também elegeram democratas aprovaram, por margens expressivas, medidas de conteúdo claramente conservador sobre integridade eleitoral e esportes femininos. A informação foi levantada por Fred Lucas, do Daily Signal, em reportagem publicada pela Gazeta do Povo.
O caso mais citado é o do Kansas, estado tradicionalmente republicano que na terça-feira (3) viu o Partido Democrata conquistar uma vaga no Senado estadual. Apesar disso, 63% dos eleitores kansanos aprovaram uma emenda constitucional para garantir que apenas cidadãos americanos possam votar nas eleições locais. O mesmo padrão se repetiu no Alasca, outro campo de batalha eleitoral, onde uma medida sobre exigência de cidadania para votar passou com 69% dos votos, segundo o Ballotpedia.
Arkansas e Dakota do Sul, estados de maioria republicana consolidada, aprovaram novas leis que impedem o voto de não cidadãos em eleições municipais. A Virgínia Ocidental foi além e incorporou a regra diretamente à constituição estadual, tornando mais difícil uma reversão futura por maioria legislativa simples.
Identificação do eleitor avança mesmo em estados que elegeram democratas
O fenômeno não ficou restrito a currais eleitorais republicanos. Carolina do Norte e Ohio, dois estados que no mesmo pleito deram vitórias a candidatos democratas ao Senado americano, aprovaram emendas constitucionais que blindam a exigência de documento de identificação com foto para votar. Na Carolina do Norte, a medida passou com 60% de apoio popular; em Ohio, o índice chegou a 66%, uma margem de dois terços do eleitorado.
Em Nevada, estado que parte da cobertura internacional também tratou como vitória democrata, 62% dos eleitores aprovaram uma exigência de identificação para votar, de acordo com levantamento da NBC News citado pela reportagem. O conjunto de resultados sugere que a defesa de regras mais rígidas de identificação eleitoral tem apoio popular que atravessa a divisão partidária tradicional, mesmo quando os mesmos eleitores escolhem candidatos do Partido Democrata para cargos executivos e legislativos.
Nem todos os estados seguiram essa direção. Na Califórnia, um dos redutos mais democratas do país, 60% dos eleitores rejeitaram uma proposta de identificação do eleitor. No Arizona, estado historicamente decisivo e que o presidente Donald Trump venceu duas vezes mas perdeu em 2020, uma medida mais ampla, que incluía exigência de cidadania e identificação na própria constituição estadual, também foi derrotada nas urnas. O Colorado, por sua vez, rejeitou por 64% uma proposta que estenderia a exigência de identificação para o voto por correspondência.
Esportes femininos e cirurgias em menores também entraram na votação
Além da pauta eleitoral, as medidas sobre esportes femininos e identidade de gênero figuraram entre os temas mais votados da noite. Em Nebraska, 68% dos eleitores aprovaram uma medida que proíbe atletas do sexo masculino de competir em equipes esportivas escolares femininas, segundo dados do Ballotpedia. No Arizona, uma proposta semelhante, que também exige o uso de vestiários e banheiros de acordo com o sexo biológico, foi aprovada com 58% dos votos, conforme apurado pelo Decision Desk HQ.
No estado de Washington, fortemente identificado com o Partido Democrata, uma medida com conteúdo equivalente caminhava para a aprovação com 57% de apoio, embora a contagem ainda não estivesse encerrada na manhã seguinte ao pleito. Já no Colorado, permanecia indefinida até aquele momento uma proposta para proibir que profissionais de saúde realizem procedimentos cirúrgicos em menores de 18 anos como resposta à percepção do próprio menor sobre identidade de gênero, uma pauta que vem sendo debatida em diversas legislaturas estaduais americanas ao longo de 2026.
O tema do aborto, por outro lado, teve resultado dividido e não necessariamente alinhado ao restante do quadro conservador. Eleitores da Virgínia e de Nevada votaram para incluir o direito ao aborto nas respectivas constituições estaduais, enquanto Idaho e Missouri rejeitaram propostas no mesmo sentido, mantendo restrições já em vigor.
O que isso diz sobre o eleitorado americano
A leitura mais imediata da noite eleitoral, amplamente repercutida mundo afora, foi a de uma derrota política do presidente Donald Trump e do Partido Republicano, que perdeu a maioria tanto na Câmara quanto no Senado americano, como já noticiado por este site. Mas o resultado dos referendos estaduais mostra um quadro mais complexo: parte expressiva do eleitorado que elegeu democratas para cargos majoritários continua apoiando, por margens de dois dígitos, pautas historicamente associadas ao campo conservador, como regras mais rígidas para votação e a manutenção de categorias esportivas baseadas em sexo biológico.
Esse descompasso entre o voto em candidatos e o voto em questões específicas de política pública não é inédito nos Estados Unidos, mas ganhou destaque nesta eleição justamente pela proporção das vitórias conservadoras em estados que, na mesma cédula, davam a vitória a candidatos democratas. Para analistas citados pela própria imprensa americana, o resultado indica que bandeiras como integridade eleitoral e proteção ao esporte feminino deixaram de ser vistas por parcela do eleitorado como posições exclusivamente partidárias, tornando-se, em vez disso, consensos que atravessam a divisão entre republicanos e democratas em boa parte do país.
Um padrão que se repete desde 2024
O movimento identificado nesta eleição de meio de mandato não nasceu agora. O Ballotpedia, organização não partidária citada na reportagem da Gazeta do Povo, é justamente o site de referência que acompanha, estado a estado, esse tipo de referendo e emenda constitucional nos Estados Unidos, e vem registrando há alguns ciclos eleitorais um apoio consistente a medidas de identificação do eleitor e exigência de cidadania, mesmo em territórios onde candidatos democratas vencem a disputa majoritária. A eleição desta semana amplia essa lista de estados com algum tipo de garantia constitucional nesse sentido.
O resultado também tem potencial de influenciar a corrida presidencial de 2028. Se o padrão identificado nos referendos estaduais se mantiver, candidatos republicanos podem tentar nacionalizar pautas como identificação do eleitor e proteção ao esporte feminino, áreas em que mesmo eleitorados favoráveis a candidatos democratas demonstraram concordância nas urnas. Resta saber se a liderança do partido, já concentrada em consolidar a maioria recém-conquistada no Congresso, vai absorver esse sinal ou tratá-lo como um dado isolado em uma noite de derrota mais ampla para o campo republicano.
Com informações da Gazeta do Povo (Fred Lucas, do Daily Signal).
