
Fiesp cobra corte na Selic
A Federação das Indústrias do Estado de São Paulo subiu o tom contra o Banco Central nesta quarta-feira (4). Em nota divulgada horas depois da decisão do Copom, a entidade classificou a manutenção da Selic em 13,75% ao ano como um “aperto monetário desmedido” e cobrou publicamente uma trajetória de corte mais agressiva dos juros. Para a Fiesp, a taxa básica está hoje em um patamar próximo de três vezes a inflação corrente, o que, na avaliação da federação, penaliza o setor produtivo sem justificativa proporcional ao cenário de preços.
O recado da indústria paulista chegou horas depois de o Comitê de Política Monetária encerrar um ciclo que já durava cinco reuniões seguidas de corte de 0,25 ponto percentual. Até então, o mercado via o Banco Central em uma rota relativamente previsível de afrouxamento gradual. A pausa anunciada nesta quarta mudou essa leitura e reacendeu a queda de braço entre o Copom e setores que dependem de crédito mais barato para investir, produzir e vender.
O que levou o Copom a interromper os cortes
Em comunicado oficial, o colegiado do Banco Central justificou a pausa como uma medida “compatível com a estratégia de convergência da inflação ao redor da meta”. A meta de inflação perseguida pela autoridade monetária é de 3%, com margem de tolerância de 1,5 ponto percentual para cima ou para baixo. Segundo dados do IBGE, o IPCA está anualizado em 4,58%, já acima do teto dessa banda, o que abre espaço para o Banco Central justificar cautela adicional antes de retomar os cortes.
O Copom foi além e descreveu os riscos para a inflação, tanto de alta quanto de baixa, como “mais elevados que o usual” no momento atual, com predominância do viés de alta. Entre os fatores citados pelo comitê estão o prolongamento de conflitos no Oriente Médio, com reflexos sobre o preço do petróleo e derivados, e também efeitos climáticos sobre a produtividade agrícola e os custos de energia. O comunicado menciona ainda uma política monetária mais restritiva nas maiores economias do mundo como parte do pano de fundo externo que pesou na decisão.
Chamou atenção também a referência a uma possível “desancoragem das expectativas de inflação por período mais prolongado”, o que, segundo o próprio Banco Central, poderia incorporar efeitos de segunda ordem sobre horizontes mais longos. Essa é uma linguagem técnica para dizer que o mercado pode passar a desconfiar que a inflação ficará alta por mais tempo do que o previsto, o que tende a travar ainda mais qualquer sinalização de novos cortes nas próximas reuniões.
Histórico recente da Selic e o peso dos juros no bolso
Vale lembrar o caminho percorrido pela taxa básica nos últimos meses para entender o tamanho da frustração do setor produtivo. A Selic havia permanecido em 15% ao ano desde junho de 2025, um patamar elevado mesmo para os padrões brasileiros, historicamente acostumados a juros reais altos. A trajetória de queda só teve início em março deste ano, com reduções sucessivas de 0,25 ponto a cada reunião, até a sequência ser interrompida nesta quarta-feira com a manutenção em 13,75%, nível que, segundo o próprio Banco Central, ainda está acima do patamar registrado em março de 2025, quando a Selic estava em 13,25%.
Na prática, isso significa que o custo do crédito para empresas continua alto havia mais de um ano, com reflexos diretos sobre capital de giro, financiamento de máquinas e equipamentos, e expansão de linhas de produção. Para o consumidor final, os juros elevados se traduzem em parcelas mais caras no financiamento de veículos e imóveis, cartão de crédito mais oneroso e um desestímulo geral ao consumo a prazo, que historicamente movimenta boa parte do varejo brasileiro. É justamente esse encadeamento, da taxa básica ao bolso de quem produz e de quem compra, que a Fiesp coloca no centro da sua crítica.
O que dizem o mercado e o governo sobre o rumo dos juros
O Boletim Focus, pesquisa semanal do Banco Central com economistas do mercado financeiro, divulgado na véspera da decisão do Copom, trouxe um dado que reforça o desconforto da indústria. Segundo o levantamento, o mercado projeta que o IPCA termine 2026 em 5,22%, acima da meta de 3% e também acima do teto da banda de tolerância. Para 2027, a expectativa já recua para 4,76%, dentro do intervalo tolerado, mas ainda distante do centro da meta perseguida pelo Banco Central.
Do lado do governo, a posição pública tem sido de reconhecer que a taxa está alta, sem necessariamente confrontar de forma direta a autonomia do Banco Central. Um dia depois da decisão do Copom, o ministro da Fazenda, Dario Durigan, afirmou em coletiva à imprensa que considera o patamar atual da Selic prejudicial à economia como um todo, incluindo o próprio setor financeiro. “É uma taxa de juros bastante alta, muito ruim para a economia, para todos os setores, mesmo o setor financeiro, o setor produtivo”, disse o ministro, acrescentando que o esforço do governo Lula é “dar as condições corretas, estruturais, corretos estímulos para que a gente diminua a taxa de juros”.
Durigan também vinculou essa agenda ao ajuste fiscal, afirmando que o governo seguirá buscando fechar as contas públicas com superávit por meio de cortes de privilégios e revisão de benefícios e de gastos primários, sem atingir, segundo ele, a população mais pobre. É uma fala que tenta equilibrar o discurso de responsabilidade fiscal, considerado por boa parte do mercado como pré-condição para qualquer flexibilização mais consistente da política monetária, com a pressão política por juros mais baixos que vem tanto da indústria quanto de parte da própria base governista.
O impasse, no entanto, segue sem solução no curto prazo. Enquanto o Banco Central sinaliza cautela diante de um cenário inflacionário que considera ainda incerto, a Fiesp insiste que o aperto monetário atual já passou do ponto necessário para controlar os preços e começa a cobrar crescimento e competitividade do setor produtivo brasileiro. A tensão entre as duas posições deve continuar pautando o debate econômico nas próximas reuniões do Copom, especialmente se os números de inflação e atividade confirmarem ou não os riscos de alta mencionados pelo próprio comitê em seu comunicado mais recente.
Reportagem com informações da Jovem Pan e de O Antagonista.
