Wikimedia CommonsOperação da Polícia de SP mira núcleo ligado ao PCC suspeito de lavar cerca de R$ 1 bi
A Polícia Civil do Estado de São Paulo deflagrou nesta quinta-feira (3) a Operação Helmintos, voltada a desarticular um núcleo ligado ao Primeiro Comando da Capital (PCC) suspeito de lavar recursos provenientes do tráfico de drogas e de usar esse dinheiro para ganhar influência sobre atividades econômicas e políticas em Praia Grande, na Baixada Santista. Segundo a apuração, a estrutura teria movimentado valores próximos de R$ 1 bilhão, principalmente por meio da compra de imóveis de alto padrão, empresas e estabelecimentos comerciais.
A investigação é conduzida pelo Departamento de Polícia Judiciária de São Paulo Interior 6 (Deinter 6), e as diligências desta quinta ocorrem em imóveis residenciais e comerciais, em empresas e em um setor da própria administração municipal, com ações em Praia Grande, Guarujá, Santo André e Santana de Parnaíba. Segundo a polícia, o grupo investigado reunia lideranças da organização criminosa, operadores financeiros, intermediários do setor imobiliário e pessoas usadas como testas de ferro para dar aparência de legalidade às movimentações.
A apuração identificou quatro frentes principais de atuação do esquema: lavagem de dinheiro por meio de negócios imobiliários, controle de quiosques instalados em áreas públicas da orla de Praia Grande, suspeitas de favorecimento em procedimento licitatório municipal, e financiamento ou apoio a agentes políticos eleitos na região. Para a polícia, os elementos reunidos até aqui indicam uma tentativa deliberada de ampliar a influência da facção sobre setores do Executivo e do Legislativo municipal, e não apenas de lavar dinheiro do tráfico.
Por que o nome da operação é “Helmintos”
A escolha do nome Helmintos, termo que designa um grupo de vermes parasitas, faz referência direta ao modo como a investigação descreve a atuação do núcleo: uma presença que se infiltra lentamente na economia local e passa a extrair recursos dela de forma contínua, de maneira análoga a um parasita que se instala em um hospedeiro sem matá-lo de imediato, mas comprometendo progressivamente seu funcionamento. A Polícia Civil avalia que esse modelo de infiltração, via aquisição de imóveis e controle de pontos comerciais em áreas turísticas, representa prejuízo direto à livre concorrência, já que empreendedores legítimos passam a competir com negócios sustentados por capital de origem ilícita.
Esse padrão de atuação do PCC fora do tráfico direto de drogas já havia sido descrito por investigações anteriores da Polícia Civil e da Polícia Federal em outras regiões do litoral paulista, nas quais a facção usa o controle de pontos de comércio em orlas movimentadas, como quiosques de praia e estacionamentos informais, como porta de entrada para disputar espaço político em municípios menores, onde o volume de recursos de campanha costuma ser mais baixo e, portanto, mais sensível a aportes externos.
O que a Justiça já autorizou na operação
No decorrer da investigação, a Polícia Civil representou à Justiça pela prisão temporária de quatro suspeitos apontados como lideranças e operadores financeiros do esquema, pedido que foi deferido antes da deflagração da fase ostensiva desta quinta-feira. Além das prisões, a Justiça autorizou a expedição de mandados de busca e apreensão, o bloqueio de contas e investimentos vinculados aos investigados e o sequestro de 29 imóveis ligados ao grupo, medida que busca garantir que os bens de origem suspeita não sejam dissipados enquanto a apuração avança.
As equipes em campo têm como objetivo apreender documentos e contratos, registros financeiros, aparelhos eletrônicos, dinheiro em espécie e armas, materiais que devem subsidiar o aprofundamento das apurações sobre os crimes de organização criminosa, lavagem de dinheiro e tráfico de drogas. A Polícia Civil informou que as investigações prosseguem sob sigilo para identificar outros envolvidos e mapear toda a extensão patrimonial, econômica e política do esquema, o que sugere que o número de indiciados e de imóveis sequestrados ainda pode crescer nas próximas semanas.
A Operação Helmintos se soma a uma série de ações deflagradas nos últimos anos contra a infiltração do PCC em setores formais da economia paulista, que vão de postos de combustíveis e redes de distribuição de combustível adulterado a fintechs usadas para pulverizar recursos ilícitos em pequenas transações financeiras, dificultando o rastreamento pelos órgãos de controle. Relatórios do Conselho de Controle de Atividades Financeiras (Coaf) já haviam identificado, em levantamentos anteriores, um padrão de uso de empresas de fachada no setor imobiliário litorâneo como um dos métodos preferidos por núcleos financeiros ligados a organizações criminosas para converter dinheiro de origem ilícita em patrimônio formal e aparentemente legítimo.
O caso de Praia Grande também chama atenção pelo valor envolvido: a cifra de R$ 1 bilhão estimada pela Polícia Civil coloca a Operação Helmintos entre as maiores apurações de lavagem de dinheiro ligadas ao PCC já deflagradas no litoral paulista, superando em escala outras operações recentes contra núcleos financeiros da facção na Baixada Santista. A continuidade do sigilo sobre parte das investigações indica que o Ministério Público de São Paulo ainda deve receber, nas próximas semanas, novos elementos sobre a eventual participação de agentes públicos municipais no esquema de favorecimento identificado pela polícia.
A escolha de Praia Grande como epicentro da operação não é acidental: a cidade, com cerca de 330 mil habitantes e um dos litorais mais movimentados do estado durante a temporada de verão, concentra um mercado imobiliário de alta rotatividade, com grande volume de imóveis de temporada e comerciais na orla, características que investigadores apontam como terreno fértil para operações de lavagem que dependem de transações frequentes e de difícil rastreamento quando comparadas a outros tipos de ativos. Municípios do litoral paulista já haviam sido alvo de operações anteriores da Polícia Civil envolvendo loteamentos irregulares e empresas de fachada do setor de construção civil, mas a Operação Helmintos é a primeira a ligar esse tipo de estrutura financeira diretamente ao financiamento de campanhas e à influência sobre o Legislativo municipal.
Com informações da Jovem Pan.
