PexelsSP confirma primeiros casos de Febre do Nilo Ocidental
A Secretaria de Estado da Saúde de São Paulo (SES-SP) confirmou os dois primeiros casos humanos de Febre do Nilo Ocidental registrados no Estado desde que a vigilância epidemiológica da doença começou a ser feita no país. É a primeira vez que São Paulo registra casos confirmados da enfermidade em seres humanos.
O primeiro caso identificado é de uma mulher de 34 anos, moradora de Ribeirão Preto, que tem histórico recente de viagem à região amazônica e já está considerada curada. O segundo é de uma adolescente de 18 anos, residente em São José do Rio Preto, que permanece internada sob cuidados médicos. Em ambos os casos, o local provável de infecção ainda está sob investigação epidemiológica pelas equipes de vigilância estaduais e municipais.
“A confirmação dos dois primeiros casos humanos de Febre do Nilo Ocidental no Estado reforça a importância da vigilância epidemiológica e do acompanhamento permanente da situação”, destacou a diretora do Centro de Vigilância Epidemiológica Prof. Alexandre Vranjac (CVE-SP), Tatiana Lang D’Agostini, acrescentando que as equipes seguem atuando para identificar o local provável de infecção e orientar medidas de prevenção à população.
Casos também foram registrados em Santa Catarina e Piauí
Além dos dois casos paulistas, Santa Catarina confirmou dois registros da doença no mesmo período: uma mulher de 77 anos morreu na cidade de Imbituba em decorrência da infecção, enquanto outro paciente, de 56 anos, diagnosticado em Caçador, já recebeu alta hospitalar após período de internação. Segundo a Secretaria da Saúde catarinense, ambos os quadros apresentaram manifestações neurológicas, um dos sinais mais graves associados à doença. Há ainda um caso considerado provável no Piauí, Estado que concentra o histórico mais antigo de circulação do vírus no Brasil.
A trajetória da Febre do Nilo Ocidental no país começou em 2014, quando o Ministério da Saúde confirmou o primeiro caso humano da doença, em um trabalhador rural do município de Aroeiras do Itaim, no Piauí, que apresentou quadro de encefalite e recebeu alta depois de tratamento. Desde então, segundo levantamentos técnicos de vigilância, o Brasil acumulou um número ainda baixo, mas crescente, de registros: entre 2014 e 2024, pesquisadores identificaram cerca de 110 casos prováveis ou confirmados, distribuídos por 59 municípios em 13 unidades federativas, além de episódios de circulação do vírus detectados em cavalos em Estados como Bahia, Minas Gerais e Espírito Santo. Com os registros de 2026, contabilizando os casos de Santa Catarina, São Paulo e o caso provável do Piauí, o acumulado nacional de casos humanos passa a somar mais de 20 registros desde o início da vigilância da doença no país.
Transmissão por mosquito Culex e sintomas mais comuns
A Febre do Nilo Ocidental é uma infecção viral aguda causada por um arbovírus, o mesmo grupo que inclui os vírus responsáveis por doenças como dengue, Zika, chikungunya e febre amarela. A transmissão ocorre principalmente pela picada de mosquitos do gênero Culex, os popularmente chamados pernilongos ou muriçocas, que adquirem o vírus ao se alimentarem do sangue de aves infectadas. Diferentemente de outras arboviroses, não há transmissão direta de pessoa para pessoa, já que humanos e cavalos, quando infectados, não costumam desenvolver carga viral suficiente para infectar novos mosquitos.
Estima-se que cerca de 20% das pessoas infectadas pelo vírus cheguem a desenvolver manifestações clínicas perceptíveis, que na maior parte dos casos são leves, como febre, mal-estar, falta de apetite, náuseas, vômitos, dor de cabeça, dor muscular, dor nos olhos, manchas na pele e aumento dos gânglios linfáticos. Em uma parcela menor, porém mais preocupante, dos pacientes, a doença pode evoluir para formas mais graves, com comprometimento do sistema nervoso central ou periférico, provocando quadros como encefalite, meningite ou outras alterações neurológicas que exigem avaliação médica imediata e, em alguns casos, internação hospitalar.
Até o momento não existe vacina nem tratamento antiviral específico aprovado contra a Febre do Nilo Ocidental em humanos. O manejo clínico costuma ser de suporte, com repouso, hidratação e acompanhamento médico conforme a evolução de cada paciente. Em quadros graves, com comprometimento neurológico, pode ser necessária internação em Unidade de Terapia Intensiva, com reposição de líquidos por via intravenosa e suporte respiratório quando indicado.
Entre as medidas de prevenção recomendadas pelas autoridades de saúde estão o uso de repelente conforme orientação do fabricante, o uso de roupas que reduzam a exposição da pele, a instalação de telas em portas e janelas, a eliminação de recipientes que acumulem água parada e cuidados redobrados no período do entardecer ao amanhecer, quando a atividade dos mosquitos Culex tende a ser maior. O Ministério da Saúde informou que acompanha as investigações em curso nos Estados, presta apoio técnico às secretarias estaduais e prepara nota técnica com orientações atualizadas para reforçar a vigilância da doença em todo o território nacional.
Um padrão global de circulação do vírus
A Febre do Nilo Ocidental não é uma doença exclusiva do Brasil. O vírus circula há décadas em diferentes regiões do mundo, com destaque para os Estados Unidos, onde a doença integra o sistema regular de vigilância coordenado pelos Centers for Disease Control and Prevention (CDC), que notifica anualmente centenas a milhares de casos humanos, dependendo da temporada de transmissão do vetor. A circulação do vírus em território americano desde o final da década de 1990 é, inclusive, um dos motivos pelos quais autoridades brasileiras de saúde pública mantêm vigilância reforçada sobre casos suspeitos em aves, cavalos e humanos, ainda que o número de registros no Brasil permaneça, por ora, significativamente menor do que o observado em outros países.
No caso brasileiro, especialistas em medicina tropical descrevem o padrão de circulação do vírus como silencioso, mas persistente: mesmo com poucos casos clínicos confirmados em humanos a cada ano, há evidências de circulação viral em diferentes Estados ao longo de mais de uma década, incluindo detecções em equídeos que funcionam como sentinelas para a presença do vírus em determinada região, mesmo antes do registro de casos humanos naquela área. Segundo infectologistas consultados por veículos especializados, a identificação oportuna de novos casos depende essencialmente de dois fatores: suspeita clínica qualificada por parte dos profissionais de saúde e acesso a exames laboratoriais específicos, já que os sintomas iniciais da Febre do Nilo Ocidental podem ser facilmente confundidos com outras arboviroses mais comuns no país, como a própria dengue.
Com informações do Estadão Conteúdo e da Agência Brasil.
