Peña renuncia à Presidência do Paraguai após escândalo bancário

Peña renuncia à Presidência do Paraguai após escândalo bancário

O presidente do Paraguai, Santiago Peña, anunciou nesta quinta-feira (5) sua renuncia ao cargo em meio ao colapso do Ueno Bank, um dos maiores bancos digitais do pais, que deixou milhares de correntistas sem acesso as proprias economias. Em video publicado nas redes sociais, Pena disse ter tomado a decisao “pensando na estabilidade do nosso pais, na paz social e na necessidade de preservar nossas instituicoes democraticas”.

O pronunciamento veio horas depois de a Camara dos Deputados paraguaia abrir sessao para analisar um pedido de impeachment contra ele. Segundo o jornal ABC Color, a propria bancada governista do Partido Colorado declarou apoio ao avanco do processo, o que praticamente garantia a aprovacao do impeachment caso Pena nao deixasse o cargo antes. “Nao estaremos ao lado do saque dos fundos publicos, privados e dos aposentados”, afirmou Horacio Cartes, presidente da Associacao Nacional Republicana (ANR), em nota publicada no X.

Pena tambem pediu desculpas publicamente. “Quero pedir desculpas ao povo se em algum momento falhei. Nunca foi minha intencao defraudar a confianca que depositaram em mim”, disse, acrescentando que sua prioridade agora e “a tranquilidade dos paraguaios que confiaram suas economias no nosso sistema financeiro”. Quem assume a Presidencia e o vice, Pedro Alliana, que deve completar o mandato ate 2028. O Congresso paraguaio ja arquivou um pedido de impeachment que tambem mirava Alliana, mas o processo contra Pena segue tramitando.

O escandalo do Ueno Bank

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A crise comecou a escalar na terca-feira (3), quando milhares de paraguaios foram as ruas de Assuncao para cobrar a liberacao de seus depositos no Ueno Bank, instituicao que respondia por quase metade dos 6,4 milhoes de clientes bancarios do pais. O Banco Central do Paraguai colocou a instituicao sob intervencao apos conclu-la insolvente, ou seja, incapaz de honrar seus compromissos financeiros.

Segundo a revista Crusoe, parceira de O Antagonista, as investigacoes apontam que o Ueno administrava cerca de 850 milhoes de dolares em recursos do Estado paraguaio, incluindo verbas de fundos de pensao e aposentadoria. O banco teria emprestado mais dinheiro do que suas reservas de seguranca permitiam, um descasamento que se tornou insustentavel quando a confianca dos depositantes comecou a ruir. Na quarta-feira (4), o Banco Central chegou a suspender temporariamente saques de determinados fundos de investimento ligados a instituicao, e anunciou que fara um adiantamento da garantia do Fundo de Garantia de Depositos aos poupadores afetados.

Um detalhe que alimentou a pressao politica sobre Pena: ele foi acionista do grupo controlador do Ueno Bank ate marco de 2025, quando vendeu suas acoes, segundo apurou a Crusoe junto ao economista Wagner Enis Weber, diretor-presidente da consultoria Braspar. Antes de ocupar a Presidencia, Pena tambem presidiu o Banco Central paraguaio e, posteriormente, o Ministerio da Economia, o que tornou sua proximidade com o setor financeiro ainda mais escrutinada pela oposicao e pela imprensa local.

Diferenca em relacao ao caso Master, no Brasil

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A crise paraguaia guarda semelhancas superficiais com o escandalo do Banco Master no Brasil, mas Weber chama atencao para uma diferenca central: a reacao institucional. “Diferentemente do escandalo do Banco Master no Brasil, os paraguaios estao agindo para punir os envolvidos”, resumiu a reportagem da Crusoe. No Brasil, o processo que apura a fraude de R$ 17,5 bilhoes atribuida ao Master e a seu ex-controlador Daniel Vorcaro segue em tramitacao havia meses no Supremo Tribunal Federal, sem que nenhuma autoridade politica de primeiro escalao tenha deixado o cargo em decorrencia direta do caso.

No Paraguai, o desfecho foi o oposto: a pressao popular, somada ao avanco imediato do Congresso, levou a saida do presidente em menos de 72 horas apos as primeiras manifestacoes nas ruas de Assuncao. Para Weber, a disputa tem tambem um componente de poder interno ao Partido Colorado. “Essa situacao vinha se arrastando. O presidente do Partido Colorado, Cartes, e Pena queriam ficar livres um do outro (…) Esse banco Ueno surgiu do nada, era uma financeira media que se juntou a um banco com milhoes de clientes”, afirmou o economista a Crusoe.

Weber tambem pondera que a oposicao paraguaia dificilmente capitalizara a crise de forma imediata. “A oposicao sempre se divide e o Partido Colorado sempre se junta (…) Para derrotar, apenas se houvesse alguma uniao em torno de um candidato popular. Ou alguma divisao do Colorado”, avaliou, lembrando que o novo presidente, Alliana, e tambem um nome ligado a Cartes.

Repercussao regional

A renuncia de Pena ocorre em uma semana de turbulencia institucional na America do Sul: a Gazeta do Povo noticiou nesta mesma semana que o presidente do Tribunal Supremo da Bolivia, Romer Saucedo, deixou o pais alegando risco a propria vida e a de sua familia. Sao casos distintos, sem relacao direta entre si, mas que reforcam um pano de fundo de instabilidade politica e institucional entre os vizinhos do Brasil justamente no momento em que o pais discute o proprio arcabouco de seguranca juridica e financeira apos o caso Master.

Ate o fechamento desta reportagem, o Partido Colorado nao havia indicado se tentara manter Alliana na chapa para as eleicoes gerais de 2028 ou se buscara uma nova candidatura. A expectativa no Congresso paraguaio e que o processo de impeachment contra Pena continue tramitando, ainda que ja afastado do cargo, para formalizar eventuais sancoes e impedir que ele dispute eleicoes futuras.

Com informacoes de Jovem Pan e O Antagonista/Crusoe.

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