
Marinho e Tereza Cristina desafiam Alcolumbre
Os senadores Rogério Marinho (PL-RN) e Tereza Cristina (PP-MS) confirmaram suas candidaturas à presidência do Senado para a eleição de fevereiro de 2027 e já começaram a executar uma estratégia conjunta para tentar derrubar o favoritismo de Davi Alcolumbre (União-AP), que busca a reeleição no comando da Casa. Os dois aliados articulam o que vem sendo chamado de “pinça eleitoral”: candidaturas paralelas, voltadas a públicos diferentes, que devem convergir para um nome único na reta final da disputa.
A ideia é simples no papel, mas exige coordenação fina em um colegiado de 81 votos secretos. Marinho concentra sua campanha no eleitorado mais conservador, puxando temas como a anistia aos condenados pelos atos de 8 de janeiro e críticas ao que classifica como ativismo do Judiciário. Já Tereza Cristina mira o centro político, o agronegócio e a bancada feminina, com discurso de diálogo e a possibilidade inédita de se tornar a primeira mulher a presidir o Senado.
Marinho hoje lidera a maior bancada da Casa, a do PL, e construiu plataforma em torno da defesa da Constituição e do controle sobre decisões monocráticas de ministros do Supremo Tribunal Federal. Tereza Cristina, por sua vez, mantém canais abertos até com parlamentares governistas em pautas econômicas, o que a torna alternativa menos desgastante para senadores reticentes a um confronto institucional aberto com o Judiciário e o Palácio do Planalto.
O que é a pinça eleitoral e por que ela é arriscada
A manobra consiste em lançar duas candidaturas simultâneas para ocupar espaços distintos do tabuleiro, ampliando o total de votos que a oposição consegue atrair isoladamente, para só depois somar esse capital em torno de um nome só, no momento decisivo da votação. Funciona como uma tenaz: cada ponta avança por um lado diferente até fechar o cerco.
O risco está embutido na própria regra do jogo. Como o voto para a Mesa Diretora do Senado é individual e secreto, a transferência de apoio entre as duas candidaturas não é automática nem garantida. Especialistas em articulação legislativa apontam que, se a coordenação entre as chapas falhar no momento da convergência, parte dos senadores cortejados por Marinho ou por Tereza Cristina pode simplesmente migrar para o colo de Alcolumbre, que já comanda a Casa e dispõe de mecanismos de barganha orçamentária e indicações para fidelizar votos.
Ainda assim, a dupla aposta que dividir o terreno antes de unificar é mais eficiente do que uma candidatura única enfrentando de imediato toda a máquina que Alcolumbre já monta para fevereiro de 2027.
O aceno de Alcolumbre a Bolsonaro e a reação do Planalto
A ofensiva de Marinho e Tereza Cristina não nasce no vácuo. Nas últimas semanas, Davi Alcolumbre passou a sinalizar à bancada do PL, a maior do Senado, que estaria disposto a avançar com uma proposta de anistia aos condenados pelos atos de 8 de janeiro de 2023 e ao próprio ex-presidente Jair Bolsonaro, numa tentativa explícita de atrair o apoio desse grupo e, ao mesmo tempo, esvaziar a candidatura de Marinho, hoje o principal nome da oposição ao cargo.
O movimento gerou desconforto imediato na base governista. Segundo reportagem da Gazeta do Povo, parlamentares do PT tratam a punição aos envolvidos no 8 de janeiro e a inelegibilidade de Bolsonaro como pontos inegociáveis, e classificam a manobra como um “balcão de favores”. Mesmo com uma relação historicamente fluida entre Alcolumbre e o presidente Luiz Inácio Lula da Silva, o Palácio do Planalto não chegou a dar aval público ao aceno, por temer que uma anistia ampla soe como rendição política diante da oposição só para garantir um aliado na presidência do Senado.
É justamente aí que mora a contradição que incomoda adversários de ambos os lados: Alcolumbre tenta, ao mesmo tempo, seduzir a bancada bolsonarista com a bandeira da anistia e manter o apoio de Lula e do PT para a sua recondução, um equilíbrio que setores da própria esquerda já classificam como insustentável e que a direita mais identificada com Bolsonaro trata como promessa vazia.
Críticas de aliados do bolsonarismo e o apoio declarado de Lula
Entre os críticos mais duros do arranjo está o colunista Paulo Briguet, que em artigo publicado na Gazeta do Povo classificou uma eventual reeleição de Alcolumbre como “uma desgraça” para o país. Para Briguet, aceitar qualquer acordo com o atual presidente do Senado seria ingenuidade, já que, em sua avaliação, “o que Alcolumbre fala não se escreve”, numa referência à desconfiança de que a promessa de anistia não seria de fato cumprida mesmo que a bancada do PL entregasse seu apoio. O colunista também atribui a Alcolumbre a responsabilidade por barrar pedidos de impeachment contra ministros do STF e por obstruir a instalação da CPMI do Banco Master, caso em que, segundo ele, o próprio presidente do Senado estaria pessoalmente implicado.
Do lado oposto do espectro, um editorial da própria Gazeta do Povo também cobrou cautela, mas por outro motivo: o apoio que Lula já estaria sinalizando à permanência de Alcolumbre no comando da Casa. Segundo o texto, assinado com base em declarações de Guilherme Cunha Pereira, presidente do veículo, quem defende o cumprimento da Constituição não poderia compactuar com o que descreve como blindagem recorrente de Alcolumbre a ministros do Supremo, sobretudo Alexandre de Moraes. Na leitura do editorial, a reeleição de Alcolumbre já estaria sendo articulada nos bastidores e precisaria ser freada antes de fevereiro de 2027.
O resultado prático dessas duas frentes de crítica, vindas de ângulos diferentes, é que Alcolumbre chega à disputa cercado por desconfiança tanto de setores da direita que o veem como obstáculo a pautas conservadoras quanto de vozes que o acusam de blindar o STF em troca de capital político com o Planalto. É nesse espaço de desgaste que Marinho e Tereza Cristina tentam crescer.
O calendário da disputa
A eleição para a Mesa Diretora do Senado está marcada para fevereiro de 2027, no início da nova sessão legislativa. Até lá, a expectativa é de uma disputa de bastidores intensa, com indicações para comissões, liberação de emendas e composição de relatorias funcionando como moeda de troca entre os três grupos em jogo: o bloco governista afinado com Alcolumbre, a ala mais identificada com Bolsonaro capitaneada por Marinho e o espaço de centro que Tereza Cristina tenta ocupar.
Alcolumbre, que preside o Senado desde fevereiro de 2025, tentará repetir a façanha de seu antecessor Rodrigo Pacheco, que buscou mas não conseguiu viabilizar uma recondução irrestrita ao cargo. A diferença, segundo analistas do Congresso, é que a articulação em torno da anistia a Bolsonaro adiciona uma variável nova e imprevisível ao jogo: um tema caro à bancada do PL, mas que pode custar caro junto ao Judiciário e a parte do próprio establishment que hoje sustenta Alcolumbre.
Com informações da Gazeta do Povo.
