
PDT aprova federação e partidos fora da cláusula correm ao PSB
O PDT aprovou nesta sexta-feira (6) o ingresso do partido em uma federação com o Solidariedade, o PRD e o Avante, segundo informa a Gazeta do Povo. A decisão foi tomada pela Executiva Nacional da sigla e ainda precisa passar pelo Diretório Nacional antes de seguir para o Tribunal Superior Eleitoral. O Antagonista, que também confirmou a informação, destacou que a própria direção do partido anunciou o resultado em publicação nas redes sociais e sinalizou apoio à entrada do PSB no grupo.
A movimentação tem um motivo evidente: as urnas de 2026 deixaram um grupo de partidos pequenos e médios do lado de fora da cláusula de barreira, a regra que condiciona o acesso ao fundo partidário e à propaganda gratuita em rádio e televisão a um desempenho mínimo de votos ou de cadeiras na Câmara. Sem atingir esse patamar, essas legendas enfrentam um caminho que se estreita a cada eleição, e a federação apareceu como a alternativa mais prática para sobreviver.
O que foi aprovado e o que ainda falta
Conforme detalhou a Gazeta do Povo, a executiva do PDT aprovou a entrada do partido na Federação Renovação Solidária, bloco já formado pelo Solidariedade e pelo PRD e registrado no TSE em dezembro de 2025. Com a adesão do PDT, e eventualmente do Avante, o grupo passaria a reunir quatro legendas. Os dirigentes também decidiram sugerir ao PSB que componha a aliança, embora o partido socialista não tenha a mesma urgência: foi a única das siglas envolvidas que superou a cláusula de barreira nas eleições do ano passado.
Em nota divulgada nas redes, o PDT celebrou a decisão e classificou a federação como um instrumento de fortalecimento do trabalhismo brasileiro. O texto afirma que o modelo preserva a história e a independência de cada partido e amplia a força das bancadas no Congresso. O partido informou ainda que o diálogo com o PSB permanece aberto, com o argumento de que as duas legendas compartilham valores e um caminho comum para os próximos anos.
Nada disso está fechado. As decisões dependem do referendo do Diretório Nacional do PDT e, depois, do aval do TSE. A própria estrutura jurídica exige esse filtro, já que uma federação transforma as siglas envolvidas em uma única agremiação perante a Justiça Eleitoral, com número único, funcionamento conjunto em todo o país e vigência mínima de quatro anos.
Os números que empurraram os partidos para o abraço
Os números explicam a pressa. O PDT obteve cerca de 1,6% dos votos válidos para a Câmara, bem abaixo dos 2,5% exigidos por um dos critérios da cláusula, e elegeu apenas seis deputados federais, menos da metade das 13 cadeiras necessárias pelo outro critério. A federação Renovação Solidária, com seus dois membros atuais, somou 1,86% dos votos válidos no país e sete deputados, também longe do mínimo. O Avante, terceiro envolvido sem acesso pleno aos recursos, corre o mesmo risco. Dados esses levantados pela Gazeta do Povo.
Para o PDT, o resultado de 2026 representou inclusive uma perda em relação à bancada anterior: foram três cadeiras a menos na Câmara, aponta o Antagonista. No Senado, a legenda terá apenas um representante a partir da próxima legislatura, com a saída de Weverton Rocha, do Maranhão, e a entrada de Marília Arraes, de Pernambuco. O partido é presidido pelo ex-ministro da Previdência Social Carlos Lupi.
Há quem veja nas federações um desenho distorcido do espírito original da cláusula de barreira. A regra foi criada justamente para reduzir a fragmentação e forçar legendas pequenas a se fundirem ou desaparecerem. A federação, porém, oferece uma saída intermediária que preserva as marcas partidárias e os caciques regionais de cada uma, o que para críticos significa adiar o debate sobre a sobra de siglas no país. Para os partidos envolvidos, é simplesmente a forma de continuar recebendo fundo eleitoral e tempo de televisão.
Um mecanismo nascido de uma briga política
O instrumento em si é relativamente novo. A possibilidade de formação de federações surgiu em setembro de 2021, a partir de proposta da Comissão de Reforma Política do Senado. O então presidente Jair Bolsonaro chegou a vetar o dispositivo, mas o Congresso Nacional derrubou o veto, como lembra a reportagem da Gazeta do Povo. Desde então, o modelo virou a válvula de escape preferida das legendas que ficam abaixo da linha de corte.
O TSE já registra hoje cinco federações ativas. Além da Renovação Solidária, estão em vigor a União Progressista, formada por União Brasil e Progressistas, a Brasil da Esperança, que reúne PT, PCdoB e PV, o bloco de PSDB e Cidadania e a aliança entre Psol e Rede Sustentabilidade. Com a eventual entrada do PDT e do Avante, o desenho do tabuleiro partidário muda de figura, e a pressão sobre o PSB para se juntar ao grupo tende a crescer nos próximos dias.
O Interesse do PSB em permanecer solo é compreensível. Ao atingir a cláusula, o partido garante sozinho o acesso ao fundo partidário e à propaganda gratuita, vantagens que diluiria em parte ao entrar em um bloco com legendas abaixo da linha. Por outro lado, uma federação maior se traduz em mais cadeiras somadas, mais peso nas negociações da Mesa Diretora da Câmara e maior poder de indicação em um eventual governo. O cálculo do partido socialista será entre autonomia e escala.
Resta agora acompanhar o referendo interno do PDT e, se confirmado, a análise do TSE. Se o movimento se consumar, o Congresso da próxima legislatura terá um bloco trabalhista ampliado onde antes havia siglas isoladas e enfraquecidas, e a cláusula de barreira, mais uma vez, terá produzido o efeito oposto ao prometido: em vez de extinguir partidos pequenos, empurrou-os para um modelo de união que os mantém vivos.
Reportagem baseada em informações da Gazeta do Povo e do Antagonista.
