
Eurasia Group critica falta de corte de gastos e Lula rebate: pobre não pagará conta
O governo Lula enfrenta nesta sexta-feira (6) um confronto direto entre a avaliação de analistas de mercado e a defesa pública que o próprio presidente fez da política fiscal de sua gestão. De um lado, Christopher Garman, diretor-executivo da consultoria de risco político Eurasia Group, afirmou em entrevista à CNN Brasil que “não existe um debate de corte de gasto” dentro do Planalto, apenas discussões sobre como desacelerar o ritmo de crescimento das despesas obrigatórias. Do outro, Lula reagiu horas depois, em reunião do Conselho Nacional de Política Energética, dizendo que “o pobre não pagará a conta” e que ninguém no país pode “falar mais de responsabilidade fiscal” do que sua equipe econômica.
A declaração de Garman, dada na quinta-feira (5), resume o diagnóstico de parte do mercado financeiro sobre o quadro fiscal brasileiro: o debate interno do governo estaria concentrado em medidas que alterariam regras de indexação de despesas obrigatórias, como os pisos constitucionais de saúde e educação e os critérios de concessão do Benefício de Prestação Continuada (BPC), não em reduzir efetivamente o volume de gastos. Segundo o executivo da Eurasia Group, a proposta em discussão retoma, em parte, iniciativas já apresentadas há cerca de dois anos pelo então ministro da Fazenda Fernando Haddad, que enfrentaram resistência política e não avançaram na época.
Horas depois das declarações de Garman repercutirem na imprensa, Lula foi questionado sobre a falta de disposição do governo para cortar gastos e reagiu em tom duro. “Esses meninos que ganham pouco, que se matam de trabalhar e são xingados, brigando com outros ministros porque nós temos que tirar dois tostões de um para colocar no outro. Ficam o ano inteiro brigando para manter a política fiscal com responsabilidade”, disse o presidente, em referência à equipe econômica. Na sequência, rejeitou qualquer corte de orçamento em programas voltados à população de baixa renda: “A única coisa que eles têm que saber é que o pobre não pagará a conta, nós não levaremos o povo pobre a nenhum sacrifício”.
O que diz a Eurasia Group sobre o ajuste fiscal
Garman também citou os juros elevados como um obstáculo adicional à atividade econômica brasileira, argumentando que o custo do crédito prejudica empresas e mantém famílias endividadas. Na avaliação do executivo, um sinal mais concreto de controle fiscal por parte do governo poderia aliviar o câmbio e as expectativas sobre os juros futuros, ainda que as medidas hoje em discussão dificilmente sejam suficientes para equacionar o desequilíbrio das contas públicas. “O que está em jogo é, pelo menos, sinalizar ao longo do tempo mais controle”, afirmou, acrescentando que “o debate é o grau dessa insuficiência”.
Os números do Tesouro Nacional ajudam a entender por que o mercado cobra sinais mais claros. De janeiro a setembro de 2026, o governo central acumulou déficit primário de R$ 90,2 bilhões, uma melhora em relação aos R$ 100,3 bilhões registrados no mesmo período de 2025. Apesar disso, as despesas totais cresceram 5,4% acima da inflação no período, somando R$ 1,965 trilhão. Em setembro, o resultado positivo de R$ 4,839 bilhões no primário contou com a devolução de R$ 12,8 bilhões em precatórios de exercícios anteriores, depois do cancelamento desses valores pelo Judiciário, um efeito pontual que não reflete uma mudança estrutural na trajetória de gastos.
A avaliação da Eurasia Group não é isolada. Nos últimos meses, casas de análise como Itaú BBA, XP e o próprio mercado de juros futuros vêm reiterando, em relatórios e projeções, que o arcabouço fiscal aprovado em 2023 depende de receitas extraordinárias e de contingenciamentos recorrentes para cumprir as metas de resultado primário, em vez de uma reestruturação permanente do lado da despesa. A recorrência desse tipo de crítica técnica, vinda de consultorias e bancos com histórico de avaliação do risco soberano brasileiro, é o que dá peso político à fala de Garman, mesmo sem qualquer juízo de valor partidário embutido nela.
A resposta de Lula e o contexto eleitoral da disputa fiscal
Na mesma fala em que rebateu as críticas, Lula também defendeu o resultado fiscal de 2026, afirmando que o superávit nas contas públicas deste ano, de 2,8% do Produto Interno Bruto (PIB), “não foi o que o mercado quer, mas sim o que o governo federal conseguiu fazer”. “Nós estamos entregando o orçamento agora com superávit. Não é o que o sistema financeiro quer, porque ele quer tudo, mas é o que a gente pode fazer”, declarou o presidente, em reunião extraordinária do Conselho Nacional de Política Energética (CNPE), no Ministério de Minas e Energia.
O presidente ainda comparou a dívida pública brasileira à de outros países desenvolvidos, dizendo que nações como Estados Unidos, França, Japão e Itália têm “o dobro” da dívida brasileira em proporção ao PIB, e pediu ao ministro da Fazenda, Dario Durigan, que apresente à imprensa uma análise mais detalhada sobre a composição da dívida interna do país. Lula também atribuiu parte das críticas atuais à herança recebida do governo anterior, de Jair Bolsonaro (PL), e disse ter aprendido responsabilidade fiscal com a mãe, Dona Lindu, que o ensinava que “ninguém pode gastar mais do que tem”.
O episódio ocorre a poucos meses de o Executivo precisar enviar ao Congresso a proposta orçamentária para 2027 e em meio a um cenário político já marcado pela proximidade do calendário eleitoral, fator que historicamente dificulta a aprovação de medidas de contenção de despesas obrigatórias no Legislativo. Mudanças nas regras de indexação de pisos constitucionais, como as ventiladas por Garman, dependem de aprovação de emenda constitucional ou de lei complementar, processo que exige maiorias qualificadas e costuma esbarrar na resistência de bancadas que defendem a manutenção dos gastos sociais, especialmente em ano pré-eleitoral.
Com informações da Gazeta do Povo e da Jovem Pan.
