Wikimedia CommonsTrump aceita resultado das eleições de meio de mandato enquanto republicanos perdem maioria no Congresso
O Partido Democrata conquistou na madrugada desta quarta-feira, 4, a maioria dos assentos tanto na Câmara dos Representantes quanto no Senado dos Estados Unidos, impondo uma derrota relevante ao presidente Donald Trump nas eleições de meio de mandato, as chamadas midterms. Horas depois do resultado confirmado, o republicano afirmou ao New York Times que está “absolutamente disposto a aceitar esses resultados” e disse esperar chegar a algum entendimento com os democratas no Congresso.
Segundo a Associated Press, os democratas já garantiram 228 das 435 cadeiras da Câmara, ante 139 dos republicanos, com 218 sendo o número necessário para a maioria. No Senado, a oposição virou cadeiras em estados como Iowa, Ohio, Maine, Kansas, Carolina do Norte, Carolina do Sul e Texas, somando 54 dos 100 assentos contra 44 dos republicanos. Outras duas vagas ainda aguardam definição.
A perda de maioria nas duas Casas transforma Trump no que a política americana chama de “pato manco”, presidente que ainda cumpre mandato mas perde força para aprovar sua agenda legislativa. Como toda lei precisa passar pela Câmara e pelo Senado, projetos como as operações de deportação em massa e a expansão de centros de detenção podem ter o orçamento restringido pelos novos maioria democrata, que também ganha poder para abrir investigações contra o governo e, em tese, iniciar um processo de impeachment.
Mr. Veto e os limites reais da derrota
A reação de Trump à derrota eleitoral já havia sido anunciada antes mesmo da apuração. Em entrevista a um podcast, o presidente disse que se tornaria o “Mr. Veto” caso os democratas conquistassem a maioria em ambas as Casas, uma forma de dizer que usaria o poder de veto presidencial para travar a agenda da oposição no Capitólio. Após a confirmação da derrota republicana, Trump publicou nas redes sociais a foto de um boné vermelho com a palavra “veto”, sinalizando que pretende seguir essa estratégia nos próximos dois anos de mandato.
Apesar do revés legislativo, o presidente republicano conserva um espaço de atuação considerável, sobretudo em política externa. Mesmo que o Congresso tente limitar verbas para operações militares no exterior ou conter as tarifas contra outros países, Trump pode seguir agindo por meio de decretos executivos, amparado em justificativas como “emergência nacional” ou “segurança de Estado”. Como comandante em chefe das Forças Armadas, ele também mantém o poder de ordenar deslocamentos e operações militares pontuais, a exemplo de um eventual novo bombardeio ao Irã.
Entre as consequências mais duras da derrota no Legislativo está o esvaziamento das chances de Trump indicar e confirmar um novo ministro originalista para a Suprema Corte, no mesmo perfil de Clarence Thomas ou Samuel Alito, durante o que resta do mandato. O governador da Flórida, Ron DeSantis, chegou a observar que o resultado também reduz as chances de um eventual presidente republicano eleito em 2029 conseguir aprovar indicações semelhantes, dado o tempo que a maioria democrata deve permanecer no Senado.
Um resultado mais dividido do que parece à primeira vista
Ainda que a noite tenha sido ruim para o Partido Republicano, o quadro das midterms de 2026 não representa uma adesão unânime às bandeiras da esquerda americana, segundo análise publicada pela Gazeta do Povo com base em reportagem do The Daily Signal. Eleitores de quatro estados aprovaram medidas de integridade eleitoral no mesmo pleito em que rejeitaram candidatos republicanos. No Arkansas, 69% dos eleitores aprovaram exigência de cidadania americana para votar. Na Carolina do Norte, 60% endossaram a apresentação obrigatória de documento de identidade com foto nas urnas, e em Ohio a mesma exigência passou com 66% dos votos. Na Virgínia Ocidental, os eleitores aprovaram emenda semelhante sobre cidadania.
O investimento bilionário de Elon Musk na campanha também não garantiu os resultados esperados pelo empresário. Musk gastou cerca de 445 milhões de dólares nas midterms por meio de seu comitê America PAC e do fundo republicano Senate Leadership Fund, incluindo mais de 45 milhões de dólares no Texas em apoio ao procurador-geral Ken Paxton, derrotado pelo democrata James Talarico, e 10 milhões de dólares em Ohio na campanha de Jon Husted, que perdeu para Sherrod Brown.
Já o Texas, historicamente um dos maiores bastiões republicanos do país, elegeu pela primeira vez desde a década de 1990 um democrata para o Senado estadual e para o governo, numa eleição em que boa parte da campanha democrata recorreu a retórica religiosa para defender posições de esquerda, incluindo o aborto, o que indica uma disputa de narrativas dentro do próprio eleitorado cristão americano, e não uma vitória ideológica unificada.
O cenário chega em um momento de desgaste natural para qualquer partido que ocupa a Casa Branca durante o primeiro teste eleitoral do mandato, padrão recorrente na história política americana recente, em que o partido do presidente quase sempre perde cadeiras nas midterms, independentemente da popularidade do mandatário no momento do pleito.
Ainda há 68 cadeiras da Câmara em definição, o que pode alterar a margem final da maioria democrata nas próximas horas. No Senado, as duas vagas pendentes devem apenas confirmar números já consolidados. A ala mais à esquerda do Partido Democrata também saiu fortalecida da eleição: os Socialistas Democráticos da América, que contavam com apenas dois deputados federais, Alexandria Ocasio-Cortez e Rashida Tlaib, vão somar cinco novos nomes na Câmara a partir de janeiro, o que deve acirrar disputas internas entre a ala mais moderada e a mais radical do partido na hora de negociar com a Casa Branca.
Em meio ao resultado desfavorável a Trump, uma curiosidade do pleito chamou atenção na imprensa americana: os eleitores de Washington, D.C., aprovaram por referendo a proibição da venda de foie gras na capital do país, medida que também veta a alimentação forçada de aves usada na produção da iguaria francesa, prova de que nem toda disputa da noite girou em torno da polarização entre os dois partidos.
Matéria produzida com informações de O Antagonista e Gazeta do Povo.
